adolescência, educação, infância, Roda de Encontros

A Primavera dos filhos

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Seu apelido era ratinha, de miúda que era. Demorou para crescer.

Já mocinha, das pernas compridas, ainda queria ser menina. Adiou o primeiro soutien, enquanto as amigas só falavam disso. E ao contrário da chuva, quando chega no sertão, não havia sinal de primavera para aquela menina tão pequenina. Mais que rata, ela era uma gatinha que se enroscava nos colos que estivessem à disposição.

Mesmo depois, quando os gatos começaram a miar no telhado, e quando o luar era todo de prata nas noites escuras, ela não pensou em suspirar na janela, nem lembrou de sonhar acordada porque ainda era muito criança para isso.

Demorou muito para crescer.

Ainda estudava e ria, brincava e se escondia da ideia de perder o lugar de boa menina. E ela foi perdendo também as coisas que vem antes das lindezas das árvores em flor.

Então a infância foi se esticando e a menina foi fechando os olhos para tudo o que não era dela e não era para ela, segundo ela mesma. E foi assim que ela acabou crescendo rápido demais. Para não tropeçar e não cair, foi desviando, foi esquivando, foi se furtando da consciência de que crescer era correr riscos, era experimentar, era errar e era mudar também.

“É preciso encarar uma ou duas lagartas se quisermos ver as borboletas”, dizia Ruth Rocha em A primavera da Lagarta, na sua coleção Mil Pássaros.

Uma lagarta precisa do seu tempo no casulo para ganhar asas e cor. São dias sombrios. Quem olha de fora não consegue nem imaginar o tamanho da transformação que acontece ali. Os fios apertam que quase estrangulam, desfiguram a imagem de qualquer bicho conhecido, até mesmo para a própria lagarta. Nem ela se reconhece, espremida e desamparada no abrigo que criou sozinha com fios de seda que ela não pode rasgar.

Tudo no seu tempo, cada coisa em seu lugar. A primavera é cheia de borboletas se cuidamos bem dos casulos.

Na última semana aconteceu a Roda de Encontros Matutai Adolescência. Pudemos refletir juntos sobre as profundas transformações que passam os filhos dentro dos casulos, tentando encontrar a luz.
Participe dos nossos encontros!

Inscrições: bit.ly/matutai

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maternidade, Matutaí, pais, por Vivian Wrona Vainzof, Roda de Encontros

Roda Mundo

Tem um dia na vida da gente, que a gente deixa de ser o todo dia da nossa vida. Ainda ontem, éramos piões saracoteando de um canto a outro, rodando num eixo que era só nosso e acreditando que quem girava era o mundo, só pra gente ver. Tempos de mocidade, de vivacidade atroz, de energia que parecia sem fim.

Mas chega um dia na vida que, se a gente vira mãe ou pai, passamos a ser corda. E aquela vitalidade do pião, a leveza de quem não precisa se preocupar muito aonde vai, nem como permanece em pé, se transforma em força motriz. Somos então os lançadores, as guias para outros giros. Podemos agora apreciar mais de longe… E quantos caminhos é possível avistar de fora? Quantas quedas poderíamos antecipar? Mas corda não pára pião. Não define todos os caminhos nem evita todas as quedas. Ela pode colocar ali suas melhores intenções, seus desejos, suas maiores verdades, seus valores, suas expectativas. A corda dá centro e sentido e depois sai de cena, ela não pode girar junto. O melhor que faz é admirar e a corda sorri só de ver o pião girar sem parar. E como é bonito de ver! Ele gira contente com a conquista. E se o arremesso foi consistente, o pião segue firme na pontinha do pé que segura seu corpo todo no chão, tão frágil e tão estável, tão vulnerável e tão seguro de si.

É mesmo lindo de ver… A corda se recolhe um pouco, sem se afastar demais. Ela repousa lá perto, logo logo pode ser necessária, mas só se o pião quiser. Ela vai estar ali sempre que o pião precisar se reerguer e restabelecer de novo o seu eixo. E de novo, e de novo.

Não acho que um papel seja melhor que o outro. Acredito que cada um tem sua graça na sua hora. Pais e filhos ora são espelhos, ora são seus avessos, ora caminham lado a lado ou podem ser distantes também. Depende muito de como amarramos a corda, de como lançamos o pião de como rondamos seus movimentos e como percebemos seus deslizes. Hoje eu sou mais corda do que nunca. O protagonismo não é mais tão meu na vida dos meus filhos. Mas como é bonito vê-los crescer, vê-los saracoteando por aí, bambeando, mas íntegros, com centro e com eixo.

É mesmo lindo de ver.​roda pião