Eletrônicos, Matutaí, por Vivian Wrona Vainzof, reflexão, relações afetivas

Facebook retrô

Pensei que eu já tinha me desinteressado pelas redes sociais, só porque não conto quase nada e vejo menos ainda. Mas quando a vida mostra a sua cara em carne e osso, não dá para resistir.

Ganhei até uma ruga na testa, tentando ouvir a conversa da mesa ao lado. Tive que olhar pela janela para disfarçar. O ouvido ficou mais perto mas não adiantou, só a testa franzida para ouvir melhor. Falavam de marcas famosas, de programa de TV. Notei a roupa extravagante, o cabelo desarrumado demais para ser acaso. Desconfiei que era gente famosa, mas não os reconheci. Quando foram embora, posando de celebridade, mudei de canal e sintonizei a mesa de trás.

Primeiro achei que era paixão. A coisa mais linda, mais cheia de graça, a senhora granfina, parecendo uva-passa, se dobrando na mesa pra encostar no rapaz. Ele mantinha distância, falava com a mão no chapéu, tinha pinta de Tom Jobim. Depois esses também se foram, nem olharam pra mim.

O próximo episódio já estava correndo, peguei a conversa no meio. A menina soluçava baixo, recusou um abraço. O homem barbado falava e falava, não sei se ela ouvia. Corri a vista pelo salão. Ainda tinha os garçons, as mesas de fora, os pães na vitrine. Ate os móveis cantarolavam a trilha sonora em francês. O cenografista acertou a mão, dessa vez.

tecnologiaretro

Há um tempo que perdi o interesse pelas pessoas das telas, sempre sorrindo e festejando. E me surpreendi conectada com esses desconhecidos ilustres, pela humanidade sem filtro. A vida sem rede, nua e crua, se debatendo igual peixe na vara.

Li que o Instagram pretende ocultar a contagem de likes de cada post, curti! Quem sabe a nova geração volta a editar as suas cenas para própria apreciação? E passem a curtir mais os momentos reais, sem contar visualizações?

A empresa pretende aumentar a qualidade do conteúdo e regular as ansiedades dos que buscam popularidade e aceitação. Eu comemoro a melhora nas conexões do meu Facebook retrô, e torço para que meus filhos contem suas próprias curtidas e curtam sua linha do tempo ao vivo.

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Trovoadas do século

Quando demos um celular ao meu filho mais velho, eu não tinha convicção de que era a hora, nem de que a ideia era das melhores que já tivemos como pais. Se por um lado ele já tinha dez anos, por outro lado, ele só tinha dez anos.

Fui ter meu primeiro celular depois dos vinte. Smart fone, só perto dos trinta. Em poucos anos, meu cérebro eletrônico se faz indispensável e, olhando ao redor, estou certa de que a droga do século está na nuvem e o céu está negro.

Estudiosos de renome e pesquisadores muito reputados recomendam adiar o contato das crianças com a tecnologia, prevendo condições tenebrosas. E mesmo assim, é cada vez mais precoce o acesso dos filhos a vídeos, jogos e redes sociais. Há guias, manuais e cartilhas sobre o uso da tecnologia, sugerindo que bebês não assistam conteúdo digital (nem TV) antes dos 2 anos e que jovens só tenham o próprio celular à partir dos 13. Os principais executivos das grandes empresas de tecnologia no Vale do Silício privam seus filhos do acesso às telas por toda a infância e escolhem escolas que privilegiam papel e lápis, quadro negro e mural de avisos até atingirem o Ensino Médio. (NYT via Folha de São Paulo)

Será que é possível seguir toda essa recomendação no nosso tempo?

Tenho inveja de pais que mantém seus limites respeitados. Mas também não posso abrir mão das boas oportunidade que a conversa me dá de refletir e educar.

Negociamos muito antes de eu concordar em ter um filho conectado. Argumentei que os adultos não estão aptos a fazer bom uso da tecnologia e foi ele quem me aliviou: “vocês não tiveram adultos que orientassem e eu tenho”.

Então, quando demos o celular ao meu filho mais velho, fizemos, juntos, nosso acordo de boas práticas: para que serve o celular? Quando é e quando não é oportuno usar? Quais as responsabilidades? O que se ganha e o que se perde com isso? Como encarar os riscos? Quais as consequências?

A conversa não pára. Se o celular fica sempre do lado de fora do quarto, na hora de dormir, o fluxo de aprendizado que essa reflexão desperta, não sai de dentro da gente. Hoje, combinamos de conversar sobre mensagens impróprias que circularam por ali recentemente. Sem alarde, sem mobilização coletiva, estarei de novo presente para acolher e ensinar, para ouvir e ponderar, para descobrir com ele o melhor caminho.

Criança que não sai de casa sozinha, não está preparada para circular desacompanhada pelas ruas virtuais.

O dilúvio é iminente. Eu já escuto as trovoadas. Não podermos poupar os sapatos por medo de desmanchar o penteado.

criancacelular

dicas, Família, férias, Matutaí, por Vivian Wrona Vainzof, relações afetivas, viagem

A arte de viajar em família

Cheguei de viagem com a família e estou desfazendo as malas de aprendizados que trouxe de lá.

Primeiro guardei os patinetes, que levamos para suavizar as caminhadas. As calçadas sem fim, da cidade que não dorme nunca, foram um tapete macio e as perninhas curtas estiveram mais dispostas nos dias longos.

Depois guardei os chocolates e as balas mais diferentes que encontramos, na contramão da minha resistência ao consumo de açúcar. Se a ideia de viajar é experimentar, não vale só experiências que eu julgar valiosas.

Guardei as mochilas das crianças, que ainda tinham restos de biscoito e um suco. Nós não fizemos incursões gastronômicas, as refeições foram acontecendo pelo caminho e o caminho foi se definindo no passeio. Nesse passo, ter alguma coisa sempre a mão foi um atalho para desviar da fome que faz desandar as férias.

Tirei do bolso o troco do dinheiro que incumbi a cada criança cuidar. A responsabilidade deles era tomar decisões próprias sem extrapolar o que tinham. Achei interessante ver um gastar tudo num brinquedo caro e o outro ir desembolsando aos poucos em coisa miúda. Cada um a seu modo, eles sentiram na pele a importância de escolher e renunciar, de não saber o que virá, de se arrepender e de valorizar o que têm. Também vi generosidade e gratidão dando as caras nessa impagável experiência.

A viagem com filhos tem outro ritmo e outras prioridades. Demoramos uns dias para entender isso e perceber que brincar na praça ou assistir ao voo das borboletas não é perda de tempo, mesmo deixando cartões postais sem visitar. Que comer com calma e alongar as pausas é fundamental.

E quantos museus se pode devorar num mesmo dia, ou numa semana? Aprendi com meus filhos que a visita é mais significativa se ela durar apenas o tempo do prazer. A vida está aí para eles sentirem Matisse, Monet, Portinari e descobrirem como a arte faz desabrochar os sentidos. Eu plantei a semente.

Foi uma viagem solta, sem programação nem compromisso. Andamos, sentamos, olhamos, nos falamos e nos ouvimos. Se não conhecemos todos os museus, descobrimos uns aos outros. Se não visitamos tantos pontos turísticos, pudemos nos revisitar.
Coloquei a mala vazia no armário.

Preferi guardar embaixo do colchão as experiências mais autênticas, que não estão em guia e que ninguém recomendou. Aquelas que são a cara da nossa família e que ninguém nunca mais vivenciará da mesma forma, nem mesmo nós quatro.

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Todo dia

Achei recentemente a minha pasta de papéis de carta. Uma pasta preta com uma camada grossa de poeira.

Eu tinha tanto zelo por ela, que guardei na prateleira mais alta e depois esqueci. Não soube mais dela por todos esses anos. Não lembrei, não senti saudades.

E então esse encontro casual, acuado e inesperado. Eu quase não a reconheci. E vi como ela envelheceu desamada e muito sozinha.

Abri a capa grudenta e implicante. Insisti em virar as páginas, procurando uma emoção conhecida.

Quando eu colecionava papéis de carta, cada um tinha uma cheiro e uma história. Eu sabia onde tinha comprado ou de quem tinha ganhado cada um. As cores, os desenhos, as rendas e o envelope de cada um deles me comoviam de algum jeito único.

Trocávamos na escola, como as crianças ainda trocam figurinhas, mas papel de carta tem um apego que não dá para explicar. A gente pensava por dias a fio, se a troca valia a pena, a gente brigava por eles. Alguns adultos simplificavam: “se você quer aquele e ela quer esse, que troquem”. Mas não era tão simples…

Eu vivia sonhando com a ocasião perfeita para usar meus papéis. Talvez uma carta de amor, ou num presente especial. O que será que eu esperava para usar meus papéis de carta preferidos?

Assim, economizei cada folha, engordando a pasta de afeição, e meus papéis de carta se acumularam pela vida. A pasta viveu fechada e desgastada. Amargou. E a ocasião tão inédita não chegou nunca.

Virei a última página e não achei a intimidade de antes, não encontrei comigo lá dentro. Para onde foram as histórias dos meus 8 anos?

Há muito que deixamos de escrever cartas, mas acho que continuamos à espera de ocasiões especiais, às pressas com a vida inteira, só para um dia ser único. Mas esse dia, quando chega, se é que chega, passa por nós sem acenar e não pára na estação. Segue em via expressa, encarrilhado a todos os dias da nossa vida, disfarçado de todo dia.metro_tododia

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À luz da janela

A menina esticava a massa contra a janela procurando transparência. Ela sovava e suava, torcia e se contorcia tentando acertar. Espreguiçava a mistura sobre a pia, estirava o máximo que podia. Às vezes a massa rasgava de fina, antes de ficar transparente, e ela tinha que recomeçar.

Era a avó quem enxergava além do que a menina conseguia e cobrava o ponto certo da massa, que só ela sabia. A pele manchada e os dedos calejados disfarçavam a autoridade daquelas mãos, quando demonstravam a maestria em amassar, untar e assar. Era tão sabida a senhora, que não dava conta de ensinar. Era uma cozinheira de mão cheia e gostava que aprendessem com ela, adoraria encher as mãos da filha e da neta com suas receitas de família. Mas ensinar e aprender são trabalhos de personalidades próprias que nem sempre caminham juntos. Uma achava que ensinava, mas a outra não aprendia. Uma sonhava aprender, mas a outra não transmitia.

– Vovó, falta açúcar? Chega de sova?

– Você tem que sentir, minha filha.

E ela sentia que nunca aprenderia…

Mas insistiu por amor a avó e ao perfume das maçãs no forno, da manteiga começando a derreter, do açúcar que polvilhava aquele momento.

Há muita fome para desvendar o que leva alguém a aprender. Conhecer os ingredientes que despertam atenção e levam à emoção é o segredo da receita.

A neurociência está convencida de que “só se aprende aquilo que se ama”, expressão título do livro de Francisco Mora, especialista no assunto. Ele alega que “é necessário despertar a curiosidade, acender uma emoção para armazenar e recordar de uma forma mais eficaz”. E conclui: “os elementos desconhecidos, que nos surpreendem, são aqueles que abrem a janela da atenção, imprescindível para a aprendizagem”.

Mais de cinquenta anos mais tarde, a menina ainda sente a boca aguando e ainda está em busca da transparência da massa à luz da janela. Reencontra com a avó em cada dentada de applestrudel e aproveita para perguntar como abrir a massa à perfeição.

Ela não sabe que já aprendeu.

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Família, infância, por Vivian Wrona Vainzof, relações afetivas, viagem

De alma lavada na onda

Tinha chovido a noite toda e o dia amanheceu despido. O mar que dormiu verde escuro, acordou desbotado, escondeu a cara na areia. A brisa correu no chão de cimento polido, deixando o piso mais liso.

Os atobás voavam em roda, pontilhando o céu, desviando da chuva e evitando o mar.

As crianças de sangue anfíbio correram para a praia, fizeram castelo. Chutaram bola, deslizaram para dentro da água até os joelhos, molharam a roupa, fizeram que não viram. Caíram no chão para se empanar. Criaram barreira de areia molhada para proteger das ondas as suas construções. Cataram concha.

Depois do vento, correram pela escadaria de pedra que contornava o jardim. Não reclamaram do pedregulho nos pés descalços, nem dos queimados de ontem que ainda ardiam nos ombros. Viram cobra no caminho. Viram sapo, besouro, canário, bromélia, tucano e duende. Viram de tudo. É mais fácil pôr cor na vista quando a vida convida.

De alma lavada, atravessaram a varanda, carregando a praia para dentro dos quartos, a pele gritando de frio e eles tremendo de felicidade. Os lábios roxos eram a cereja enfeitando o bolo da festa.

Os pais, que tinham estado largados nas superfícies estofadas da casa, agora dançavam. Trocaram olhares cúmplices. Gargalharam de olhos fechados, sem moderação e sem fazer barulho. Subiram a voz da Rita Lee na caixa de som e cantaram com semblante manso, em tom de regozijo.

Recomendaram banho quente e a roupa no varal.

Alguém mais ponderado foi buscar o termômetro e o antitérmico. A temperatura baixava e era certo que o dia nasceria desnudo de novo.

Caberia a nós fechar os olhos e permitir se emocionar tudo outra vez.

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