Felicidade, Matutaí, por Vivian Wrona Vainzof, reflexão

Nós também

criancacombaloesDo banco, esperando minha carona, vi dois homens na hora feliz, sentados na mesa do bar conversando sobre o fim do ano, a final do campeonato, a conclusão do curso, o término do namoro. Não ouvi o que diziam mas soube que eram cheios de fins.

Um deles fuma, o outro é divorciado, eles são carecas e usam camisa polo apertada, bebem Skol porque era a mais gelada, chegaram cedo, pegaram a mesa da calçada. Os dois sonham com o reconhecimento do chefe e com a menina ruiva da mesa de trás, enquanto limpam o suor da testa.

A moça arrumada, que espera na esquina, também sonha. Ela espera um táxi e a alegria das amigas, quando chegar de surpresa. Ela disse que não iria, mas deu tempo de deixar as crianças e ela vai aparecer sem avisar.

O motorista encosta na guia com a cara fechada. Ele esperava não estar mais trabalhando na véspera do Natal, mas não fechou o mês a tempo. Ele sonha com mais tempo, com mês fechado, em trocar de carro e deixar esse para o cunhado, enquanto espera o passageiro entrar e que seja alguém educado.

O garçom espera que façam o pedido. Há dez minutos que está ao pé da mesa, à espera. Ninguém reparou. Nem ele, que está com a cabeça virada, grudada na tela, olhando o futebol. Ele sonha com a classificação, só dessa vez. Na outra mesa, um grupo de amigos imagina a viagem de fim de ano, planejam tim-tim por tim-tim o brinde do ano novo, sonham que tudo se realize no ano que vai nascer. Eles só pensam nisso, só esperam pela chegada desse dia. Uma moça conta na mesa que está esperando o primeiro filho. Comemoram, enquanto uma outra chora por dentro, gestando há anos o sonho de ser mãe.

O bar está muito cheio nesse fim de tarde sufocado. Os ventiladores trabalham dobrado. As mesas já estão ocupadas e, na calçada, mal se pode ficar de pé. Uma multidão bebe e ri à espera do tudo novo.

Com que sonha cada um?

Dizem que devemos ser cuidadosos com as crianças, porque elas são feitas de sonhos.

Nós também.

por Vivian Wrona Vainzof, reflexão

É dezembro

Quando virei o rosto, vi que era uma senhora ruiva quem falava comigo, enquanto passava um pano nos copos e na bandeja que estavam no balcão. Foi só então que eu percebi que era comigo que ela falava. Foi só aí que a vi.

Fiquei sem jeito por não ter olhado antes, mesmo que ela estivesse quieta até então. Enchi meu copo, segurando na outra mão a redinha rendada que cobria a jarra. Ri sozinha ao lembrar da última vez, em que eu levei a rede comigo e tive que voltar para devolver. Contei essa história para ela, enquanto enchia a taça de vidro, sem tirar o olho do copo.

“É dezembro”, ela me explicou.

Quando olhei para ela, vi que tinha olhos de água. Vi que o cabelo não era hidratado mas estava arrumado. Vi que a pele era seca mas ela não. Em voz corrente ela transbordou:

“Você deve ser mãe. Mãe nunca dá conta de tudo. Quando chega dezembro, a gente carrega coisas demais”.

Não consegui tirar os olhos dela, imaginando quando foi que ela passou a me conhecer tão bem.

Com a cara vidrada e sem saber por que, não dei conta de não contar a ela que, hoje, no elevador, reparei que trazia a camisola na mão.

Era dezembro, afinal.

E ela tinha razão.

educação, Eletrônicos, Matutaí, por Vivian Wrona Vainzof, reflexão, whatssup

Silêncio em resposta

Quando eu era criança, achava que as vacas compreendiam umas às outras e que seus mugidos sempre tinham algo a dizer. Um dia minha mãe me contou que aquilo era conversa para boi dormir e eu tive que dormir com essa desilusão.

Hoje vivemos uma ilusão de conexão com o mundo inteiro, mas não conseguimos nos conectar nem com nós mesmos. Desenganados, acreditamos estar na era da comunicação mas o que estamos vendo são gritos sem ouvidos. Estamos mugindo em todos os tons. Estamos inchados de razão. Vivendo de opiniões tão inflamadas que se convertem em chamas, enquanto a compreensão escapa pelas chaminés.

Foi aos poucos que viramos gado e nos confinamos aqui? Como pudemos abrir mão da paz que silencia os rosnados, os dentes arreganhados, os embates em chifre? Acho ensurdecedora a ideia de que perdemos a capacidade saudável de ficar sozinhos, de guardar para si o que seria só nosso. De deixar os filhos sozinhos.

E isso não significa estar só…

Esfumaçamos nossa condição de um encontro interno, de escutar nossos pensamentos antes que virem voz, e continuamos mugindo, cuspindo as palavras. Mas se você comesse o que diz, o que escreve, posta e compartilha, você estaria nutrido ou envenenado?

Por que tornou-se importante que todos saibam o que cada um de nós pensa, se cada um de nós não se importa com o que o mundo todo pensa?

La fora há uma guerra de cada um por si, onde não há vencedores. O silêncio brota interno, escuto meu toque de recolher. A quê teus sentidos te convocam por dentro?

Que pais nossos filhos assistem fazer uso das novas tecnologias, das redes sociais? E que filhos queremos preparar para a comunicação do futuro?

De onde vejo, estamos perdidos.

Mas me lembro de Clarice Lispector e encontro alento: “perder-se também é caminho”.

Talvez silêncio também seja resposta. Ou nos leve a respostas suavizadas pela espera, sem mugidos.

E que isso possa ajudar cada um de nós a se reencontrar.

silenciosemresposta