gênero, Matutaí, por Vivian Wrona Vainzof, preconceito

Despenteando o macaco

E se eu estivesse sozinha na estrada e o pneu do meu carro furasse no final da tarde daquele dia gélido? Até chamar o socorro e receber ajuda, já estaria escuro e eu, batendo os dentes de frio e de medo. Ou pior, se eu estivesse com as crianças, quanta vulnerabilidade.

Uma vez, uns anos atrás, fui convidada para fazer um curso de mecânica para mulheres. Aprendi que não é no posto de gasolina que devemos trocar o óleo, e que a água sempre vai estar baixa se o carro estiver quente. Acho que também ensinaram a trocar o pneu, mas eu não sei se aprendi…. Quem tem marido super-herói acaba não aprendendo um bocado de coisas.

Mas não era tão tarde e eu não estava na estrada, nem estava com as crianças, então respirei aliviada. Eu já tinha sentido a direção resistir numa curva apertada que fiz logo saindo de casa, mas pensei que era o meu braço duro. Dirigi pelo caminho sem notar maiores alterações. Foi só quando já ia voltando pra casa, que um segurança ali perto chamou minha atenção. Apontou para o chão, enxerguei a borracha espatifada no asfalto. Quis correr pra casa, estacionar o carro e esquecer o assunto, mas era tarde, o homem já tinha chamado mais outro e os dois já estavam deitados no chão, resolvendo o meu problema antes de eu pedir. Acanhei. Agradeci efusivamente e desci do carro, pelo menos diminuía o peso da trabalheira que eles teriam por mim. É constrangedor ver alguém te ajudar e não poder dar nenhum apoio, não ter nem ideia por onde começar. Fiquei rondando aquela demonstração de generosidade explícita, agradecendo repetidamente, constrangida e inútil. Será que é uma vergonha ser o sexo frágil em pleno século XXI? Não é que eu não pudesse arriscar colocar em prática a minha única aula de trocar pneu, mas minha calça era branca e eu tinha acabado de fazer as unhas…

Fiquei pensando no que estamos ensinando aos filhos nesses dias de igualdade de gêneros. Aqueles dois homens estavam dando uma mostra de machismo ou estavam sendo apenas gentis? Alguns homens talvez não saibam desdobrar um macaco, não consigam apertar a chave de roda, assim como algumas mulheres provavelmente o fazem com os pés nas costas.

Eu não faço e por isso fui até a esquina para sacar dinheiro e poder retribuir a generosidade. Na volta, o rapaz me entregou uma garrafinha de água e eu desconfiei que, além de educado, ele também pudesse ler pensamento.

Mas e se fosse um homem no meu lugar, eles não seriam tão disponíveis assim?

Sem sexismo. Sou mesmo a favor das teorias de que lugar de mulher é onde ela quiser, e à propósito, de homem também. Só acho que às vezes, o feminismo está sendo confundido com histeria e aí, não tem macaco dobrado ou penteado que dê conta do recado.pneu

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Matutaí sobre o gênero dos nossos filhos

Bebê nova na família, minha quarta sobrinha, quanta alegria! Já passei da fase 9 na escala tia e sigo contando. Chegou uma bebê linda, de traços delicados, que já nasceu com laço de fita cor de rosa e pó de arroz. Uma princesa! Uma boneca! De todas os irmãos, só eu fui ficar sem uma menininha pra chamar de princesa e para brincar de boneca. Deus não dá mesmo asa para cobra… Eu, que nunca quis pôr saia e jurei rebeldia eterna contra a meia calça, será que teria tempo de me redimir, agora? Aos 4 anos, brincando com a maquiagem da minha mãe, eu decidi, ali e para sempre, que aquilo não era pra mim…Será que eu teria outra chance? Como é que eu seria mãe de uma menina?

Quando eu era menina… bem, nesse tempo, quando eu era criança, acho que eu não era tão menina: cabelo curto, nada de fivela ou tiara, roupa sem fru-fru, He-man, carrinho, vídeo game e futebol. Esse era o meu mundo. Muito amiga dos meninos, eu me identificava mais com eles. Meus personagens eram eles, eu queria ser um deles. Mas nem por isso eu fui. Amadureci mulher e, com meus filhos, tive a chance de reviver a infância que eu gostava, do jeito que eu queria. Sem precisar me preocupar com os cabelos, os laços, os vestidos, os sapatos, a meia calça…

Mas precisava?

Verdade que meninos e meninas nascem com personalidades distintas, mas ninguém nasce mesmo igual a ninguém. E os esteriótipos estão tão exagerados… Brinquedos estão separados por gênero, roupas estão categoricamente separadas por gênero, desenhos animados e personagens estão separados por gênero, até as cores do arco íris, hoje em dia, têm indicação de gênero. Vontades e gostos pessoais estão cerceados pelos padrões da sociedade e eu acho uma pena. Não sei se pena é elemento de menino ou menina, mas num momento onde a psicanálise reconhece mais de 17 gêneros diferentes, acho que essa tendência aponta para um grande problema pela frente.

Eu gosto de ver a descoberta das crianças nas suas escolhas mais arriscadas, na sua ingênua transgressão. E atualmente, arriscado é não deixar menino gostar de rosa, cuidar de boneca, preparar comida de mentira ou de verdade, é menina não poder torcer no estádio, andar de skate, lutar esgrima com ou sem laço no cabelo. No fundo são apenas crianças sendo crianças, sem precisar de coroa nem de instrução para ser o que são. Sem pensar no que se espera delas. Sem pensar no que seriam ou, bem lá longe, ainda serão.

Enquanto isso, mães esperam que pais ajudem com os filhos e com a casa, que sejam sensíveis e compreensivos, pais esperam que mães sejam parceiras, corajosas, autônomas. O contrassenso virou senso comum.

E ainda chamam de bom senso.Vivian_e_sobrinha

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Perfeita imperfeição

perfeitaimprefeicao

Uma ideia desponta no recanto mais fundo da minha cabeça. É uma ponta de ideia, que ainda não deu as caras, mas já começa a me cutucar. Ela me chama, me acende, preciso escrever, preciso escrever.

Mas um texto pra ser texto meu, vivo e inteiro, precisa de muita dedicação para nascer. Não levo nove meses para gestar cada escrita, mas pôr um desses no mundo é um parto para mim. Quero que ele seja inteligente, delicado, bem humorado, simpático, corajoso, lindo e mais um sem-número de qualidades. Não canso de reler, de rescrever e de botar desejo de perfeição, de imaginar seu rosto ao vento, correndo mundo. Não canso! E se publico, ainda continuo lambendo a cria, revejo, remexo e sonho com o irretocável.
Que obsessão pelo texto perfeito… Seria coisa de escritora, ou paranóia de mãe?
Mas é possível amar o imperfeito?
Um casal de amigos meus saiu do consultório médico, anos atrás, dando as mãos para o filho, 5 anos, como se carregassem o túmulo dele. Não sabiam como digerir a novidade: o filho precisaria usar óculos. Acompanhei de perto uma angústia que não me fazia sentido, já que fui a menina que sempre quis usar aparelho nos dentes, engessar o braço e usar óculos! Ainda demorei uns dias até compreender que tudo não passava de uma enorme dificuldade em admitir que, se o filho era míope, ele não era perfeito. Mas míopes estavam os pais, que passaram a ver um borrão de filho onde antes viam uma pintura. E como amá-lo da mesma maneira? Ou melhor, de outra?
Assisti a um documentário na TV, onde o artesão falava sobre as mesas que fazia em madeira e a frustração por ver pessoas trazendo mesas antigas para restauração, porque estavam manchadas. “Mas essas manchas contam a história do móvel”, ele dizia, “essa é a essência da peça”.
As manchas davam às mesas uma beleza única, marcavam a história delas, as tiravam da condição de vitrine para ganhar verdade na cara. E a verdade é que a perfeição não chega nunca.
Nossos filhos nunca são exatamente o que sonhamos. São imperfeitos como somos todos, únicos, excepcionais, especiais a seu próprio modo e marcados pela história de vida de cada um. Mas são eles que nos chamam, nos acendem e nos convocam a ser os pais perfeitos. A viver acima de tudo, mais essa obsessão.