dicas, Família, férias, Matutaí, por Vivian Wrona Vainzof, relações afetivas, viagem

A arte de viajar em família

Cheguei de viagem com a família e estou desfazendo as malas de aprendizados que trouxe de lá.

Primeiro guardei os patinetes, que levamos para suavizar as caminhadas. As calçadas sem fim, da cidade que não dorme nunca, foram um tapete macio e as perninhas curtas estiveram mais dispostas nos dias longos.

Depois guardei os chocolates e as balas mais diferentes que encontramos, na contramão da minha resistência ao consumo de açúcar. Se a ideia de viajar é experimentar, não vale só experiências que eu julgar valiosas.

Guardei as mochilas das crianças, que ainda tinham restos de biscoito e um suco. Nós não fizemos incursões gastronômicas, as refeições foram acontecendo pelo caminho e o caminho foi se definindo no passeio. Nesse passo, ter alguma coisa sempre a mão foi um atalho para desviar da fome que faz desandar as férias.

Tirei do bolso o troco do dinheiro que incumbi a cada criança cuidar. A responsabilidade deles era tomar decisões próprias sem extrapolar o que tinham. Achei interessante ver um gastar tudo num brinquedo caro e o outro ir desembolsando aos poucos em coisa miúda. Cada um a seu modo, eles sentiram na pele a importância de escolher e renunciar, de não saber o que virá, de se arrepender e de valorizar o que têm. Também vi generosidade e gratidão dando as caras nessa impagável experiência.

A viagem com filhos tem outro ritmo e outras prioridades. Demoramos uns dias para entender isso e perceber que brincar na praça ou assistir ao voo das borboletas não é perda de tempo, mesmo deixando cartões postais sem visitar. Que comer com calma e alongar as pausas é fundamental.

E quantos museus se pode devorar num mesmo dia, ou numa semana? Aprendi com meus filhos que a visita é mais significativa se ela durar apenas o tempo do prazer. A vida está aí para eles sentirem Matisse, Monet, Portinari e descobrirem como a arte faz desabrochar os sentidos. Eu plantei a semente.

Foi uma viagem solta, sem programação nem compromisso. Andamos, sentamos, olhamos, nos falamos e nos ouvimos. Se não conhecemos todos os museus, descobrimos uns aos outros. Se não visitamos tantos pontos turísticos, pudemos nos revisitar.
Coloquei a mala vazia no armário.

Preferi guardar embaixo do colchão as experiências mais autênticas, que não estão em guia e que ninguém recomendou. Aquelas que são a cara da nossa família e que ninguém nunca mais vivenciará da mesma forma, nem mesmo nós quatro.

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Família, Felicidade, Matutaí, por Vivian Wrona Vainzof

Sete dias de domingo

Durante a semana eu madrugo. Abrir o olho antes do sol acordar é alta madrugada para mim. Não me acostumo.

Acordar filho a essa hora é tortura, mesmo que acordem ainda mais cedo no domingo. Por isso acho tão injusto que eles se vistam em operação tartaruga na segunda feira, que o café da manhã passe da hora, e que pôr as meias seja um inveterado desencontro de mãos e pés e o que estiver passando na cabeça. Há uma camada atrás da outra de obstáculos, até passar pela porta da sala com a mochila fechada, de cara lavada e tudo no lugar. Daí eu achar que viver em São Paulo é uma eterna corrida sem linha de chegada. Cada manhã, uma vitória na São Silvestre.

Até que fui convidada para um encontro na hora do café. Reunião íntima, só para pôr o papo em dia, para matar as saudades num dia qualquer de verão. Então deixei as crianças na escola, como faço sempre e, mais uns minutos, cheguei. Na calçada, antes de tocar a campainha, me ocorreu que era quase madrugada e não se visita alguém uma hora dessa. Marcamos um café mas não a hora. A que horas será que tomam café as pessoas que não madrugam com as galinhas e as escolas?

A casa era silêncio. As janelas ainda estavam fechadas, mas lembrei que também não abri as cortinas antes de sair. Será que todos dormiam? Como podiam estar dormindo se o rádio já cantava “vambora, vambora, olha a hora”? Será que eles não olhavam a hora?
Preferi não tocar. Meu escritório estava no bolso, então esperei. Sentada no carro, em frente ao portão, dando tempo ao tempo, trabalhei, ouvi as notícias no rádio, li, escrevi.

Quando vi mais gente na calçada, quando enxerguei a cor do céu, quando ouvi uns cachorros latindo na vizinhança, arrisquei uma mensagem que demorou mais um pouco para ser respondida. “Estamos acordados, entra”. Descobri, assim, como vivem as famílias que não correm para a linha de chegada. Entendi que algumas famílias acordam sem despertador, sentam juntas à mesa, tomam chá sem queimar a língua, conversam logo cedo. As crianças, de pijama, sorriem. Descobri como essas famílias vivem, enquanto outras correm contra o relógio, e existem para superar obstáculos, atrasadas para viver.

Colocamos o papo em dia, matamos as saudades, tomamos café como se fosse domingo. Quantos domingos será que há na semana dessa gente?

Me despedi tão tranquila que, de repente, achei que já era hora do almoço, corri para o carro, acelerei até o farol antes de olhar para o relógio do carro: a hora não chegava às nove ainda. Eu tinha um dia todo para me apressar enquanto algumas famílias, viveriam.

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desafio, educação, férias, infância, maternidade, Matutaí, por Vivian Wrona Vainzof

Entre espuma e marola

Tem noite que a gente nem vê a lua. Tem noite que a gente nem olha para o céu. Tem dia que a gente nem vê passar. Nesses dias que passei na praia, assisti à lua ficar mais redonda, arrastando o véu prateado pelo mar. A maré se encheu de tanto esperar.
Dava para ver na cara dela, que o brilho era medo de minguar.

Entre espuma e marola, entre a areia e o céu, vi que as crianças estavam crescentes. E seus medos, eram outros.

Criança só cresce quando deixam. E só se enche quando está vazia demais para reconhecer a si própria.

Quem sabe se corressem mais para longe, se nadassem mais no fundo, se passeassem mais no escuro, se ousassem voar mais alto, quem sabe não estariam mais preenchidas de consciência? Talvez, assim, veriam mais de perto o que pensam e sentem, o que gostam e temem, o que acreditam e são. Talvez apreciassem mais a vista quando fecham os olhos. Talvez se sentissem mais brilhantes quando fraquejam e suportassem mais noites sem luar.

Se a maré sempre recua antes da onda,luacheia e se a lua, quando está nova, não é visível no céu, então os filhos, quando se encolhem, pode ser que também estejam se preparando para crescer.

Mas os pais suportam assistir aos filhos em suas fases minguantes?

Quem sabe se olhassem mais para a lua…

Talvez soubessem que é preciso coragem para fazer um ciclo todo. Que cada tempo é uma fase. Que é preciso minguar para crescer.

Felicidade, Matutaí, por Vivian Wrona Vainzof, reflexão

Nós também

criancacombaloesDo banco, esperando minha carona, vi dois homens na hora feliz, sentados na mesa do bar conversando sobre o fim do ano, a final do campeonato, a conclusão do curso, o término do namoro. Não ouvi o que diziam mas soube que eram cheios de fins.

Um deles fuma, o outro é divorciado, eles são carecas e usam camisa polo apertada, bebem Skol porque era a mais gelada, chegaram cedo, pegaram a mesa da calçada. Os dois sonham com o reconhecimento do chefe e com a menina ruiva da mesa de trás, enquanto limpam o suor da testa.

A moça arrumada, que espera na esquina, também sonha. Ela espera um táxi e a alegria das amigas, quando chegar de surpresa. Ela disse que não iria, mas deu tempo de deixar as crianças e ela vai aparecer sem avisar.

O motorista encosta na guia com a cara fechada. Ele esperava não estar mais trabalhando na véspera do Natal, mas não fechou o mês a tempo. Ele sonha com mais tempo, com mês fechado, em trocar de carro e deixar esse para o cunhado, enquanto espera o passageiro entrar e que seja alguém educado.

O garçom espera que façam o pedido. Há dez minutos que está ao pé da mesa, à espera. Ninguém reparou. Nem ele, que está com a cabeça virada, grudada na tela, olhando o futebol. Ele sonha com a classificação, só dessa vez. Na outra mesa, um grupo de amigos imagina a viagem de fim de ano, planejam tim-tim por tim-tim o brinde do ano novo, sonham que tudo se realize no ano que vai nascer. Eles só pensam nisso, só esperam pela chegada desse dia. Uma moça conta na mesa que está esperando o primeiro filho. Comemoram, enquanto uma outra chora por dentro, gestando há anos o sonho de ser mãe.

O bar está muito cheio nesse fim de tarde sufocado. Os ventiladores trabalham dobrado. As mesas já estão ocupadas e, na calçada, mal se pode ficar de pé. Uma multidão bebe e ri à espera do tudo novo.

Com que sonha cada um?

Dizem que devemos ser cuidadosos com as crianças, porque elas são feitas de sonhos.

Nós também.

imaginação, infância, Matutaí, por Vivian Wrona Vainzof

Convite para tocar as nuvens

Na praça onde eu passo, um cachorro leva uma moça para passear. Ele corre pela praça e ela vai atra presa à coleira, arfando. Ela gosta, que a vejo voltar todo dia. Ele se diverte mais, rindo aquele riso de cão de praça. Correm tanto que às vezes tropeçam nas raízes dos fícus da calçada. São Paulo é cheia de árvores anciãs, com galhos em fio, escorridos até o pé. Fossem cabelos e seriam brancos de sabidos. A pele do tronco é pálida e enrugada. Se falassem, contariam mais histórias que minha bisavó. Eu dava tudo para ouvir história de árvore antiga, de ar respeitável, que já viu tanto e ouviu mais. Ontem na praça, uma figueira despenteada chamou as crianças para tocar as nuvens. Algumas galgaram alto, chegaram até o céu. Não queriam descer. E quem quer ter os pés no chão? Ficaram abraçadas no pescoço gordo da árvore, como abraçam uma professora preferida. No dia que chove, as crianças brincam na praça pela janela. Sobem no balanço, escorregam e fazem castelo de areia molhada sem ficar resfriadas. Depois, chamam a figueira para entrar e comem bolo de cenoura, cantam juntas, contam histórias sem hora para acabar. A figueira vai ao céu.

QuemQuerterosPesnoChao

adolescência, Convidados Matutaí, dicas, educação, escola, estudo, Matutaí, por Vivian Wrona Vainzof, volta às aulas

Nota baixa na escola, e agora?

Meu pai me dizia que quem não cola não sai da escola. A citação original talvez seja o contrário dessa, mas qualquer uma delas traz a angústia dos alunos com relação às notas e as provas e a aprovação no final do ano. Não tenho saudades desse tempo.

Como mãe, ainda acho que as escolas exigem das crianças um enquadramento excedido e descabido, mas já que o combinado é seguir as regras do jogo, aí vão algumas dicas da SOS Educação para salvar os ano letivo.

As notas do meu filho estão péssimas. Ainda dá tempo de fazer alguma coisa?

A resposta para a pergunta começa com um alto e sonoro “sim”! E aí vão 6 razões pelas quais podemos afirmar que está em tempo de ajudar seu filho:

  • Não é o ano letivo que precisa ser salvo, mas sim a relação do seu filho e de toda a família com os estudos. A compreensão de que aprender requer esforço e concentração, mas que a recompensa virá para ele mesmo. Não em forma de um bom emprego daqui a não se sabe quanto tempo e nem o que seria um bom emprego. O retorno vem agora, logo depois de uma sessão de estudos produtiva: a sensação de estar no controle, de ser capaz de se dedicar a um objetivo por si só é um combustível muito poderoso, capaz de ajudar na mudança de comportamento em relação aos estudos.
  • O último período letivo do ano escolar está aí e vai acontecer de qualquer jeito. Passar por ele não é uma opção. A maneira como vai ser enfrentado é sim uma decisão do seu filho e de toda a família. Você pode propor o desafio de juntos vocês garantirem que este seja o período deste ano que vão guardar na memória. E juntos, planejar o que precisa ser feito por cada um para que todos tenham ótimas lembranças destes últimos meses de escola. Acredite: seu filho é capaz de se comprometer com uma lista de ações propostas por ele mesmo!
  • Caso as notas dos períodos anteriores tenham sido, em sua maioria, baixas, não há dúvida de que a auto estima já está comprometida. Ainda que tente esconder isso ou disfarçar com postura do tipo “não estou nem aí”, um aluno com notas baixas acaba por não acreditar em sua capacidade de reverter esse quadro. Aqui está o foco do que precisa ser resgatado imediatamente: a auto confiança do seu filho. Com a auto estima em baixa, o cérebro recusa desafios e estudar acaba por realmente se tornar uma missão impossível. Para ajudar, tire o foco das notas. Discursos sobre como ele é lindo ou inteligente também não ajudam em nada neste momento. Uma dica é dividir com ele alguma tarefa doméstica par que você possa fazer elogios autênticos. Estes de fato impactam fortemente a auto estima. Ser elogiado por algo que ele sabe que fez ajuda a melhorar a auto estima e gera o combustível necessário para enfrentar os desafios dos estudos.
  • Encontrar uma forma de se organizar para o momento da tarefa e dos estudos é o caminho para enxergar este desafio de final de ano na proporção que ele realmente tem: pode até parecer um monstro antes de ser dominando e compreendido. Torna-se um simples desafio depois que seu filho percebe que tem as ferramentas necessárias para domar e vencer o que antes parecia mais forte que ele. Procure ajuda caso a rotina da família seja muito corrida ou se você está em situação de alto estresse. Conseguir enfrentar a situação com o envolvimento emocional na medida certa vai fazer toda a diferença. Ninguém poderá substituir o papel dos responsáveis no apoio, demonstração de que acreditam que o filho é capaz e na união para mudar a rotina dentro de casa. Mas técnicas eficazes de organização e estudos podem sim fazer toda a diferença agora e um especialista entra neste ponto. Temos essa opção de atendimento individual.
  • As notas baixas ao longo do ano vão causar danos para além deste período escolar. A matéria ensinada agora deveria formar a base para conteúdos mais complexos que virão não somente nos próximos meses, mas principalmente nos anos seguintes. Eis mais um motivo porque investir tempo, atenção e muito esforço agora ainda é fundamental. Mesmo que as notas venham em nível suficiente para “passar raspando”, isso não deve ser o suficiente. A matéria que não foi assimilada agora fará falta ali na frente, no próximo ano letivo. O aluno que não aprender a estudar agora, já começará o ano seguinte em defasagem e sem o interesse e garra necessários para fazer diferente na série seguinte.
  • E, finalmente, o principal: ainda está em tempo porque não podemos jamais desistir de ajudar nossos filhos a se encontrarem como seres humanos capazes que são de aprender. Um aluno que consegue descobrir seus próprios caminhos para estudar, buscar recursos para tirar suas dúvidas, enfrentar o desafio de matérias nas quais precisa dedicar mais tempo e esforço se torna um ser humano mais forte, batalhador, capaz de lutar por seus sonhos.

Sim, ainda está em tempo de fazer um final de ano letivo livre de sustos, frustrações e dedos apontados para os culpados. Lembre-se de que não é a nota que vocês buscam, mas sim a mudança de rotina de estudos. E as notas? Fique tranquila que essas virão como consequência!

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