educação, Família, maternidade, Matutaí, pais, por Vivian Wrona Vainzof

À espera dos filhos

De todas as coisas que eu poderia desejar a um filho recém nascido, de tudo o que passou na minha cabeça naqueles nove meses da expectativa que vi crescer mais que minha barriga, eu escolhi um ninho de amor. Uma imagem tão batida e tão piegas quanto são piegas e batidas as coisas do coração. E nesse caso, do útero também.

Aesperadosfilhos

Me preparei para a chegada do primeiro filho como vi tantas outras mães fazerem: decorei o quarto como quem prepara um altar, embalei macacão amarelo de linha com gola bordada, organizei itens de higiene que eu nunca tinha visto antes e não sabia como usar, lavei fraldas de pano, perfumei as gavetas. Comprei mamadeiras de bicos em mil formatos, sem saber que meu bebê mamaria no peito até completar um ano. Quantos enganos vive uma mãe idealizando a jornada dos filhos.

Para a porta da maternidade, encomendei um quadro azul celeste onde dois passarinhos, pousados num galho comprido, estufavam o peito sem tirar os olhos do filhote que chegava ao ninho. Para o segundo filho, o mesmo ninho, no mesmo quadro, ganhou mais um passarinho. Eram meus votos de uma família amorosa, de um lar acolhedor, de convivência fraterna amigável e afetuosa, de proteção sem privar da liberdade dos voos próprios. Eram esses os meus desejos para meus filhos.

Transbordando de idealizações que escorriam até pelos mamilos, demorei a enxergar com clareza o que era eu, o que era filho, o que era amor, o que era medo, o que era possível e o que era devaneio. Eu passeava de camisola pelos corredores claros da maternidade, imaginando outras mães e outros bebês vivendo seus primeiros encontros com mais intimidade, mais sintonizados e menos assustados. De passo em passo, de porta em porta, eu fantasiava o que cada mãe vivia e pensava, e via pendurado o que cada família sonhava para seus bebês. Vi nome de anjo, vi principe de coroa, vi familia de crochê, vi sapatinho posado em barrigas gigantes, vi o uniforme do Corinthians e depois não consegui ver mais nada.

Fiel torcedora, frequentadora de estádio, senti um frio na espinha. Achei pouco. Achei insensível. Achei que de todas as coisas que alguém poderia desejar a um filho recém nascido ali estava uma expectativa só, de que o filho vestisse o desejo de ser o que sonharam que fosse. O que será que os pais pensam quando escolhem para as boas vindas aos filhos, uma representação desabitada, com falta de substância? Achei triste e descolorido. Não só porque o Corinthians é branco e preto e o meu desejo para filho é arco íris, mas porque acho que gente, no mundo, tem que fazer escolha e descobrir quem se é sem doutrinação.

Nada contra o futebol, nada contra as famílias que torcem e sofrem juntas pelo time do coração, que é a parte mais legal da torcida, nem penso que todos os pais que penduraram roupinha de time na porta da maternidade anularam seus desejos mais amorosos. Mas acho que o fla x flu nacional perdeu a graça, tanto no esporte como na política e na sociedade. Não dá mais para sonhar filho por algum viés tão militante, tão limitante, tão beligerantes e tão excludente. Assim como, mais tarde, não vai dar para se queixar que cresceram agressivos, intolerantes e que a sociedade se tornou competitiva e maniqueísta. Acho que não dá mais.

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Matutaí sobre o gênero dos nossos filhos

Bebê nova na família, minha quarta sobrinha, quanta alegria! Já passei da fase 9 na escala tia e sigo contando. Chegou uma bebê linda, de traços delicados, que já nasceu com laço de fita cor de rosa e pó de arroz. Uma princesa! Uma boneca! De todas os irmãos, só eu fui ficar sem uma menininha pra chamar de princesa e para brincar de boneca. Deus não dá mesmo asa para cobra… Eu, que nunca quis pôr saia e jurei rebeldia eterna contra a meia calça, será que teria tempo de me redimir, agora? Aos 4 anos, brincando com a maquiagem da minha mãe, eu decidi, ali e para sempre, que aquilo não era pra mim…Será que eu teria outra chance? Como é que eu seria mãe de uma menina?

Quando eu era menina… bem, nesse tempo, quando eu era criança, acho que eu não era tão menina: cabelo curto, nada de fivela ou tiara, roupa sem fru-fru, He-man, carrinho, vídeo game e futebol. Esse era o meu mundo. Muito amiga dos meninos, eu me identificava mais com eles. Meus personagens eram eles, eu queria ser um deles. Mas nem por isso eu fui. Amadureci mulher e, com meus filhos, tive a chance de reviver a infância que eu gostava, do jeito que eu queria. Sem precisar me preocupar com os cabelos, os laços, os vestidos, os sapatos, a meia calça…

Mas precisava?

Verdade que meninos e meninas nascem com personalidades distintas, mas ninguém nasce mesmo igual a ninguém. E os esteriótipos estão tão exagerados… Brinquedos estão separados por gênero, roupas estão categoricamente separadas por gênero, desenhos animados e personagens estão separados por gênero, até as cores do arco íris, hoje em dia, têm indicação de gênero. Vontades e gostos pessoais estão cerceados pelos padrões da sociedade e eu acho uma pena. Não sei se pena é elemento de menino ou menina, mas num momento onde a psicanálise reconhece mais de 17 gêneros diferentes, acho que essa tendência aponta para um grande problema pela frente.

Eu gosto de ver a descoberta das crianças nas suas escolhas mais arriscadas, na sua ingênua transgressão. E atualmente, arriscado é não deixar menino gostar de rosa, cuidar de boneca, preparar comida de mentira ou de verdade, é menina não poder torcer no estádio, andar de skate, lutar esgrima com ou sem laço no cabelo. No fundo são apenas crianças sendo crianças, sem precisar de coroa nem de instrução para ser o que são. Sem pensar no que se espera delas. Sem pensar no que seriam ou, bem lá longe, ainda serão.

Enquanto isso, mães esperam que pais ajudem com os filhos e com a casa, que sejam sensíveis e compreensivos, pais esperam que mães sejam parceiras, corajosas, autônomas. O contrassenso virou senso comum.

E ainda chamam de bom senso.Vivian_e_sobrinha

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“Eu nasci há 10 anos atrás”

Mais umas semanas e meu filho mais velho faz 10 anos. Quando a gente vai completando décadas, o tempo corre ainda mais? Da aparência do menino gorducho, de cabelos cacheados, que corria, corria e não parou mais de correr, não sobrou muita coisa, mas eu encontro com ele no fundo do olhar. Os anos esticaram o tempo e esticaram ele todo, já dá no meu ombro. E ele, que aos 3 anos achava que eram seus tênis que corriam rápido, foi, devagar, desvendando outras verdades. Descobriu que pai se engana, que mãe se arrepende, e que somos outro para cada filho. Aprendeu que os do bem e os do mal se confundem e que é bom desconfiar, mas confiar é ainda melhor. E que se arriscar vale a pena; que ele é ele e mais ninguém; que a fada do dente era eu.

O que eu descobri nesses 10 anos dá pra conversa de metro. Mas de tudo, o que mais aprendi é que o que importa mesmo é estar perto deles antes que cresçam. E durante. E depois.

Às mães e pais de crianças que estão crescendo rápido demais, descobrindo tantas e tantas coisas que imaginamos sermos nós quem ensinaríamos, uma dica: corram! Desfrutem do tempo com eles, apreciem as histórias que eles contam, saibam o que faz seus olhos brilhar.

Encontrei no site Parents Magazine, essa lista de viagens nos Estados Unidos, cheias de fantasia, para se fazer com os filhos antes que eles completem 10 anos.

Museu Eric Carle de ilustração 
É um estúdio enorme e colorido, de iluminação narural, onde as crianças criam um sem número de projetos. Pode ser em papel machê, como as figuras que ilustram o trabalho do Eric Carle, desenho ou um trabalho manual referente a algum evento especial ou exibição temporária , ou colagem. O museu conta ainda com uma biblioteca com milhares de livros ilustrados. Vale a pena uma parada para uma leitura mediada por um guia de lá. Do lado de fora da biblioteca, você encontra uma gigantesca lagarta, a mais famosa dos livros de Eric.

Trem Polar Expresso
Inspirado no livro clássico, essa estrada de ferro que atravessa mais de 30 cidades (entre elas Durango, no Colorado, Newport, em Rhode Island, Williams, no Arizona e Miami) oferecem passeios de 1 hora com uma leitura do livro e uma visita ao papai Noel. Algumas rotas ofereceram uma xícara de chocolate quente com biscoitos e um presente do Papai Noel.

Uma experiencia Crayola
paraíso de atividades manuais para crianças são, para nossa surpresa, tecnológicas. O parque foi renovado e as crianças podem criar trabalhos de arte digitais e projetar numa grande tela. Também é possível criar rótulos personalizados para os seus lápis de cera, ou um pagina para pintar a sua própria imagem. Há uma animação com a história de como é feito o giz de cera. Muito interessante para crianças artistas!

Centros de descoberta Lego
Esses centros parecem um museu infantil bem descolado. Tem em Atlanta, em Schaumburg, Illinois, em Grapevine, no Texas, em Kansas City, no Missouri, em Yonkers, Nova York e Somerville, em Massachusetts. Jovens fãs de Lego podem participar de torneios de criação em Lego, criar curta-metragens em 4-D e fazer aulas de como montar. Algumas das localidades possuem área especial para os menores, com Lego Duplo e até uma mostra do Star Wars.

Parque David F. Bolger 
Esse parquinho foi criado por um designer alemão e fica dentro do Jardim Bayfront. Criativo, colorido e cheio de surpresas, como o balanço das flores, mini trampolins e um escorregador de 3 andares de altura que as crianças podem escalar por redes. Os menores vão apreciar a casinha com fonte e um escorregador que cai na água.

Parque Temático Jardim Gilroy 
O que era um santuário das árvores se tornou um paraíso para as famílias. Não espere seus filhos crescerem para experimentar. Os passeios acontecem pelo meio de pomares e hortas, onde as crianças vão poder brincar com plantação de alho, morango ou cogumelos. O parque está apto a receber famílias com carrinho de bebê. Há um lago onde pode acontecer de alguma flor te espirrar água!

Walt Disney World e Disneylandia
Seus filhos podem ter ido para a Disney alguma vez ou você pode estar esperando o momento certo para levá-los. Existe, no entanto, uma janela perfeita para tornar inesquecível a experiencia de encontrar os personagens pessoalmente. Se as crianças já tiverem 10 anos ou mais, essa experiencia não será mais tão mágica. Mas para os menorzinhos, esse encontro deixa uma lembrança eterna.

Aquário de Monterey 
Interessante para todas as idades. Uma área molhada que passa por túneis, paredes texturizadas e janelas baixas é especial para crianças pequenas. Entre as mais de 45 atrações, as crianças vão brincar com enguias de pelúcia, tocar ouriços e outras criaturas do mar, se fantasiar de cavalo marinho enquanto apreciam ao vivo os mesmos num tanque vizinho dali. Há também muitos jogos relacionados à vida marinha.

Resort Keystone
Um retiro na montanha onde as crianças encontram um castelo de neve do seu próprio tamanho assim que descem do teleférico. Tem túneis, uma torre de observação, escorregadores e um trono esculpido em gelo. Aos sábados acontece uma parada com desfile do mascote e distribuição de cookies.

Museu infantil de Indianapolis
O maior museu infantil dos Estados Unidos tem 5 andares de diversão para crianças, desde as menores até os pré-adolescentes. Na estação dos dinossauros uma criança de 3 anos pode se fantasiar de dinossauro, enquanto uma de 8 conversa com um paleontólogo sobre um fóssil verdadeiro de dinossauro. Mas quanto antes você puder essa viagem para conhecer o museu, melhor. A exibição principal, no 3º andar, é para crianças até 5 anos10 anos

Família, Matutaí, por Vivian Wrona Vainzof

Laços de Família

Domingo era dia de pizza na casa da minha avó. Na verdade, era a avó da minha mãe, mas como a gente não tinha outra, chamávamos essa bisavó de vó e assim ficou. Ela era bem velhinha, e parecia que tinha sido sempre assim, muito vagarosa, de poucas palavras e quase surda. O telefone da casa dela, que ficava num aparador bem em frente à entrada, perto da porta da cozinha, quando tocava, alarmava até o corpo de bombeiros e nem assim ela atendia… Mas ele tocava pouco, era muito sozinha, ela. Morava num pequeno apartamento cinzento que ficava em frente ao Parque da Luz, mas que era escuro a qualquer hora do dia e me dava calafrios. De Clara, tinha o nome e o cabelo, que era bem branco e brilhante. Ela usava vestido embaixo dos joelhos, casaco de lã, meia grossa e sapatos que mostravam o dedão dos pés sempre inchados. Além de só, a vovó Clara era ranzinza. Talvez uma coisa tenha sido consequência da outra mas não daria pra saber o que aconteceu primeiro. A vida não lhe foi só gentilezas e ela aguentou firme até quase os 100. E nós fomos lá todos os domingos.Depois de casar, adotei uma avó que já quase não é postiça, é legitima e afetivamente minha. Meus filhos vivem com a bisavó e com os avós, os tios e os primos, assim como fomos criados também. Os laços familiares teceram boa parte das minhas raízes.Essa semana, um pequeno grupo de primos meus viajou até Varsóvia, na Polônia, para visitar uma parte da história que lá ficou enterrada e esquecida por décadas. Visitaram a rua, o bairro e os túmulos de uma gente que parecia tão distante, mas eram bisnetos visitando seus bisavós. Aquela era a casa, a cidade e a vida da minha querida avó, que conheci pouco, que convivi pouco, mas que amo muito, de quem sei tantas histórias e lembro do perfume, da pele macia, do tom de voz, do sotaque, do olhar baixo, do cabelo arrumado, do sorriso afetuoso. Sou pentaneta desse casal que não viu seus filhos desembarcarem em terras tropicais, não conheceu netos, nem bisnetos e nem todos os outros que vieram depois deles. Tenho os olhos dela. O que mais em mim será deles?

Cinco gerações e um mar todo de distância não foram suficientes para afrouxar a ligação dessa família. Dezenas de parentes acompanhando a viagem à distância, diversas gerações compartilhando as lembranças e as emoções com todos os que foram e os que ficaram foi coisa de dar nó na garganta, de apertar laço familiar, de atar vínculo afetivo por muitas gerações mais.

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Como criar filhos leitores

 

Mais do que ler, eu gosto de livro. Me lembro de folhear os encadernados do meu avô, que tinham as páginas amareladas e um cheiro irresistível de papel velho. Meus pais nunca fizeram campanha declarada pela leitura, mas eram leitores vorazes e eu queria fazer igual. Minha irmã é tão tarada pela leitura que lia dentro do chuveiro e eu ficava louca, porque estragava as folhas. Será que ela ainda lê? Eu acharia muita graça nessa loucura se soubesse que sim. Tomara que sim!

Seja por isso ou por outras razões, hoje leio para os meus filhos e torço para que sintam o gosto que eu sentia, o cheiro, que escutem a emoção das palavras escritas. Eu li para eles desde o berço, li na banheira, no carro, no avião e antes de dormir e ainda leio, mesmo que eles possam ler sozinhos.

Ás vezes fico impaciente, entro em marcha atlética para acabar logo, que ridículo. Esses momentos são clímax, eu devia adiar que terminassem um dia. Não sabemos nunca se o que a gente faz como pais é suficiente, ou se seria mesmo necessário, nem sei se saberemos. Será que eles vão ler no chuveiro?

Em todo caso, gostei das dicas do New York Times e compartilho, para que outros filhos também se encantem pela leitura e leiam onde mais tiverem vontade.

  1. Inicie cedo: recém-nascidos podem ouvir você ler qualquer coisa: a receita que você prepara na cozinha, o seu livro de filosofia ou o manual de instruções que você está tentando decifrar.
  2. Leia diariamente: o contato físico da leitura compartilhada é afetivo e ajuda a estabelecer uma associação positiva, amada e familiar com o interlocutor e com os livros, que pode durar a vida toda.
  3. Leia em voz alta: a cadencia do texto e a riqueza de palavras na voz dos pais já impactam muito no desenvolvimento da linguagem dos bebês. Em pessoa, em viva voz e inteiramente presente.
  4. Abra os sentidos: a leitura pode envolver o toque nas páginas, os cheiros, as figuras e o som da voz. Os bebês podem começar a “responder” à leitura fazendo sons com a boca. Pode parecer sem sentido, mas eles estão se comunicando e vocês estão estreitando a relação por meio da leitura.
  5. Valorize a linguagem: a leitura é fundamental para o desenvolvimento intelectual, social e emocional das crianças. Elas internalizam o vocabulário e a estrutura da linguagem, números, animais, conceitos, costumes e todo tipo de informação útil sobre o mundo em que vivem.
  6. Leia sempre: a hora de dormir é um momento estratégico para criar uma rotina de leitura, porque relaxa. Mas não se esqueça que a leitura é válida à luz do dia também, no lugar dos eletrônicos. Não apenas livros, é rico ler para as crianças tudo o que vemos na rua, até quando não está escrito em lugar nenhum.
  7. Encante-se: como pais, podemos redescobrir o gosto pela leitura através de livros infantis. Muitos autores e ilustradores também pensam na audiência adulta quando criam, por isso, entregue-se para o que achar mais sedutor nas livrarias, bibliotecas ou na casa de um amigo.
  8. Respeite: é preciso reconhecer e acolher o gosto dos filhos. Eles podem rejeitar seu livro preferido, assim como você não se emociona com tratores falantes ou outros personagens que eles apreciam muito. É valioso encoraja- los a identificar e expressar o que gostam e são.
  9. Conecte-se: o momento da leitura a dois deve ser prazeroso para todos. Se seu filho não gosta da sua voz de monstro, se ele quiser virar as páginas, ou se demorar numa figura, respeite. Quanto mais satisfatória for a experiência, maior será a associação dessa lembrança com a sensação de prazer e recompensa.
  10. Aceite: não fique impaciente se seu filho te interromper, nem ignore perguntas e comentários. Quando as crianças se empolgam, ficam muito excitadas e não se contêm é sinal de que estão envolvidas. Se achar que isso não está acontecendo, convide-a a apontar alguma coisa na ilustração ou explicar uma passagem, mesmo que seja no meio da página.
  11. Amplie os horizontes: é comum ver crianças “presas” num único livro, brinquedo ou filme pelo qual você não morre de amores. Sem negar a preferência dele, tente apresentar ao seu filho, outras alternativas, mesmo que não estejam no contexto atual da vida dele. Qualquer assunto — geologia, histó ria da arte, outras culturas — podem ser se fazer interessantes num bom livro infantil.
  12. Seja inclusivo: É importante que as crianças se vejam refletidas nos livros, principalmente quando pertencem a uma minoria étnica, mas também é interessante fazer o movimento contrário: mostrar para crianças brancas ou loiras, por exemplo, que as pessoas podem ter o tom de pele e do cabelo de muitos tons. À partir de uma certa idade, as crianças se identificam exclusivamente com protagonistas do seu gênero, mas vale a pena apresentar a diversidade com personagens dos mais variados perfis. O contato com diferenças culturais, religiosas, de estrutura familiar e outras e que coexistem na sua comunidade vão preparar as crianças para viver num mundo pluralfilhosleitoresfilhosleitores
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Matutaí: O que você acha do dia das mães?

Perguntei para algumas pessoas próximas, que eu confio e admiro de formas muito variadas, quase todos mães e pais, mas todos eles, filhos: “o que você acha do dia das mães? ”

Recebi muitas respostas imediatas, simples e diretas, que estavam, provavelmente, guardadas nas prateleiras baixas de uma vitrine das ideias que alguns têm da vida e das relações com as pessoas. Depois vieram umas outras, cobertas de um resto de pó que insiste em encobrir os pensamentos que ficam armazenados no quartinho do fundo, não por serem mais preciosos, mas por serem mais antigos e talvez muito antiquados. Não sei se são. Acho que ficam ali, aprisionados no tempo e cada vez mais difíceis de encontrar, mas são os que nos trazem mais frescor, já que convidam a repensar. Fui lendo as respostas e procurando onde estaria guardada a minha.

Gostei de ler nas entrelinhas, a perspectiva de mãe ou de filho na reflexão de cada um. Não depende muito de idade a pessoa ser mais mãe ou mais filho. É da gente e acho que não passa nunca. Pra mim, 10 anos depois de ser mãe, nesse dia eu ainda gosto de achar minha mãe a mais bela, de ver como seus olhos verdes e seu sorriso largo me acolhem, como o seu abraço é macio e eu ainda posso me encolher no colo dela.

Por muitos anos eu acreditei que a data tinha perdido completamente a essência emocional, com a obrigação da presença em dia e horário marcados, o presente, as filas nos restaurantes lotados, e os encontros, tão vazios. Recebi considerações sobre o abuso comercial dessa data, a pressão cultural de uma sociedade consumista, alguns levantaram a bandeira de que todo dia é dia das mães.

Pode ser. Mas pensando bem, eu acho muito linda a ideia de celebrar a maternidade e honrar a figura da mãe, ainda que ela esteja numa tia, numa avó, numa irmã, numa professora, no pai, como bem me lembraram. Mesmo que a maternidade seja todo dia, seja toda hora, mesmo que amar esteja nos detalhes do cotidiano e não nas grandes declarações, mesmo que a cumplicidade se crie na rotina compartilhada e não só em datas festivas, mesmo assim, o todo dia as vezes nos despista de nós mesmos. E pode ser que a gente esteja precisando de um empurrãozinho, de um pretexto para reunir a família, de uma oportunidade, no meio de tanta vitrine, de tanto compromisso, de tanta pressa, de tantos rancores, de tantas certezas, para um encontro amoroso.

Não acho isso só porque os beijos e abraços que eu ganho ainda são espontâneos e porque os presentes que eles criam só pra mim me levam ao céu. Acho isso porque gosto de lembrar, esquecidos que estamos, de honrar e agradecer tudo o que ela é pra mim.

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La garantia soy yo

Stephen Kanitz disse, certa vez, que foi casado três vezes mas todas com a mesma mulher. Faz anos que li isso numa de suas crônicas e guardo essa passagem com um carinho especial. Além de ser uma perspectiva otimista e bem humorada para as crises no casamento, é também uma chave mestra em momentos que parecem sem saída.

O casamento pode ser um bálsamo para algumas pessoas mas ele desafia o equilíbrio emocional, já que é a única sociedade que estabelece um acordo de direitos iguais entre duas partes. Tendo em vista que as pessoas discordam, discutem, perdem a paciência e a razão, mudam de opinião, o cabo de guerra pode ser devastador. Romper a corda, muita vezes, também derruba cada um pra um lado, com tanta violência, que machuca tanto ou mais do que o impasse anterior. Por isso gosto da ideia de parar e poder recomeçar diversas vezes a mesma história.

Dia desses, levei as crianças num campo de batalha de Nerf – uma espécie de arena de paintball mas com balas de espuma. Lá pelas tantas, todos correndo, atirando, fugindo, escuto o grito da vitória: “te matei!!!”. Mas o menino matado respondeu com calma: “não valeu, eu estava de pause”. O vitorioso ficou sem reação. Aguardou que o outro terminasse de se organizar, de se recompor e recomeçaram a partida.

“Contra pause não há argumentos”, penso eu, tentando aprender com a lógica das crianças…

O menino tinha razão. Tudo na vida precisa de uma pausa, um tempo pra se ajeitar, pra clarear as ideias, redefinir os rumos, pra rever a estratégia.

Meus textos precisam de revisão. Contas precisam de revisão. Até o carro precisa de uma, a cada seis ou doze meses. Então, como podemos imaginar que o casamento segue fluido e suave depois de décadas? Quando um marido sustenta a família, mas já não pode sustentar o olhar; quando uma esposa dá presentes, mas não consegue dar um abraço apertado; quando um casal está junto na sala mas cada um no seu bate papo; quando dividem a cama e a conta do banco, mas não dividem suas fantasias e sonhos, não estaria na hora de revisar algumas engrenagens?

A lista de itens opcionais no orçamento da concessionária me deixa aflita. Filtro de ar e de óleo, lâmpada traseira, junta do dreno, vela da ignição… Peças que nunca vi de frente, a quem nunca prometi amor eterno, com quem não fiz planos de ser feliz têm seu lugar marcado no planejamento familiar. Há anos que o Wilson, consultor automobilístico, me avisa que está chegando a hora de agendar a revisão. “O prazo é o final desse mês, dona Vivian, para não perder a garantia”. O vozeirão ainda me alerta que, da última vez, não fizemos alinhamento e balanceamento, “seria bom cuidar disso dessa vez”…

Será que em casa eu me mantenho alinhada e balanceada? Será que estou prestando atenção nos meus filtros e freios? E quem vai me alertar que já é hora de revisar? Talvez eu tenha o número de telefone do Wilson, para perguntar como renovo a garantia de viver feliz para sempre.

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