Família, Felicidade, infância, maternidade, por Vivian Wrona Vainzof, relações afetivas

Feito Passarinho

Quando se tem filhos em casa, os anos são vendaval e os dias rastejam longos e medíocres. Quando vejo, os dentes de leite já derramaram, não encontro a chupeta nem as fraldas, e ainda estou impaciente para terminarem o jantar.

Quando os machucados já não saram com beijo, quando já não preciso mais amarrar os seus cadarços, nem fechar a água do chuveiro; quando os choros estão mais altos mas começam a rarear; quando escolhem suas próprias músicas e contam sua própria história, continuo esperando eles adormecerem com a luz acesa, porque tenho medo do escuro.

Os roxos das canelas e uma cicatriz na testa são o rastro da infância , são meu baú de reminiscências, que eu guardo a oito chaves.

E depois? Quais serão suas escolhas?

Hoje o dia amanheceu ensolarado e eu também. A família toda se arruma para sair, cada um para o seu encontro. Não me lembro disso ter acontecido antes. A cena é leve e sorridente, em tons pastéis.

Sentada no meu jardim, com uma xícara de café, assisto eles nascerem.

Um menino bonito de cabelo arrepiado sorri pra mim e me arrepio de ver que ele sabe o que quer. Ele tem gosto por saber e por querer, sem querer saber o que podem achar disso. E eu continuo com medo de soltar da mão, porque acho que ele pode desequilibrar.

O outro me pede mais 10 minutos de infância, vai crescer criança. Um pequeno só de tamanho, Golias para acreditar, e que se aninha no meu no colo feito passarinho.

Bons encontros, meus amores.

Bom passeio.

Não voltem tarde, juízo, divirtam-se. Cresçam saudáveis e felizes.

Amanhã de manhã já pode ter se passado mais 20, ou 60 anos. E eu estarei fazendo o café, para sentar no jardim e poder assistir vocês nascerem.

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Família, Felicidade, Matutaí, por Vivian Wrona Vainzof, Receitas, relações afetivas

Um ano bom e doce, shaná tová!

Quando os doces começavam a brotar lá em casa, caixas e mais caixas de pães de mel, chocolates, marzipã, bolachinhas açucaradas, brigadeiros, biscoitos em forma de estrela, de favo, de abelha, bolos de maçã e muitas coisas de lamber os dedos e os beiços, eu já sabia que o ano novo estava chegando. A sensação é parecida com aquela das ruas decoradas com neve artificial e papai Noel, mas sem o apelo comercial que traz os panetones cada vez mais cedo.

O Réveillon religioso não se dá ao raiar do dia mas com o pôr do sol. O chamado também é para dias festivos em família, mas invoca mais profundidade, pelo menos para mim. É mais recolhido no horizonte do que aceso em cores. É mais forte e mais carregado. Recentemente, notei que os presentes estão mais escassos e as caixas encolheram. Antes, os doces forravam toda a mesa da sala, agora se juntam, tímidos, num canto do aparador. Em vez de chocolates, recebi mais cartões. Não faz mal. De carona, acho sensato poder conter os exageros do açúcar, da ostentação, do desperdício, sem deixar de lado o carinho e a generosidade dos votos de ano novo.

Tradicionalmente, os desejos judaicos são para “um ano bom e doce”, e não um “feliz ano novo”. Matutei sobre isso. Conversei com meus filhos para tentar enxergar da altura que mais gosto de ver a vida. Entendi que a felicidade é efêmera e por isso mesmo passamos a vida toda tentando alcançar. Mas se a vida for vivida em boa companhia, com boas risadas e um bom vinho, não parece de bom tamanho? Se pudermos seguir por um bom caminho, de boas notícias e boas surpresas, com boa música, em boa saúde e com boas lembranças, o que mais podemos pedir a D´s? Só mesmo que seja doce.mesadedoces

Família, maternidade, Matutaí, pais, por Vivian Wrona Vainzof

O preço da maternidade

woman-3602245_1920É curioso ver tantas mulheres abdicando dos seus cargos profissionais e voltando para casa para se dedicar à família e principalmente aos filhos. Um estudo recente, publicado pela revista NYtimes, sugere uma resposta para justificar esse movimento que vem crescendo nas últimas décadas: o empenho e o esforço de criar os filhos ocupa toda a sua capacidade de entrega. Nos EUA, mais mulheres do que homens têm diploma universitário, elas estão em posições que já foram restritas a eles e é comum que adiem o casamento e a maternidade para se dedicar à carreira e, mesmo assim, o número de mulheres no mercado de trabalho não aumenta desde a década de 90. Olhando de perto, outro fenômeno se descortina nas últimas décadas: a maternidade tornou-se um trabalho mais exigente. Os pais, e principalmente as mães, estão sentindo que subestimaram o custo desta decisão. As famílias gastam mais tempo e dinheiro com filhos, do que jamais se gastou. Sentem-se muito mais pressionados a acertar, a ser “bons pais”, a garantir o sucesso e a satisfação das crianças. Isso sem falar na preocupação com a alimentação desde a amamentação, com os brinquedos e os estímulos, com a vigilância das relações sociais, dos estudos, dos resultados e de todos os seus passos e escolhas.

O estudo tenta decodificar esse sentimento de estresse que tem origem na combinação de longos dias de trabalho com inflexibilidade de horário, e as demandas familiares que vão desde jantares em família até o cumprimento das regras de uso dos eletrônicos.

Depois da chegada do primeiro filho, a volta das mulheres ao trabalho formal, como faziam antes de ser mães, sofre uma queda importante, segundo os pesquisadores. A escolha, muitas vezes, não era planejada, ao contrário da opção de ser mães. A maior surpresa apontada pelo estudo é que, depois de vestirem as “pantufas” da maternidade, as crenças femininas mudam drasticamente junto com seus planos, no que tange os papéis de cada um na família.

A pesquisa concluiu que o maior choque de realidade frente aos desafios de ser mãe acontece entre aqueles que menos se espera: as pessoas com mais altos graus de escolaridade, que tiveram filhos mais tarde, que são filhos de mães que trabalharam fora de casa e os que assumiam publicamente sua intenção de seguir a carreira.

O assunto dá pano pra manga. Ser mãe dá trabalho, exige uma cota de tempo, paciência e altruísmo que eu nunca desconfiei ter. E ao mesmo tempo, requer consciência e distanciamento permanentes, para não passar da linha, não sufocar, não ocupar todos os outros papéis que alguém, mesmo sem trabalhar, pode ou quer ser.

O estudo é um alerta. Ascende uma luz que indica o desequilíbrio da nossa vida atual. Tudo está tão excessivo: trabalhamos demais ou cuidamos demais, e os filhos, acima de tudo, estão sendo filhos demais. Como será que serão, quando forem eles, os pais? E nesse dia, o que podemos imaginar que serão dos filhos?

educação, Família, maternidade, Matutaí, pais, por Vivian Wrona Vainzof

À espera dos filhos

De todas as coisas que eu poderia desejar a um filho recém nascido, de tudo o que passou na minha cabeça naqueles nove meses da expectativa que vi crescer mais que minha barriga, eu escolhi um ninho de amor. Uma imagem tão batida e tão piegas quanto são piegas e batidas as coisas do coração. E nesse caso, do útero também.

Aesperadosfilhos

Me preparei para a chegada do primeiro filho como vi tantas outras mães fazerem: decorei o quarto como quem prepara um altar, embalei macacão amarelo de linha com gola bordada, organizei itens de higiene que eu nunca tinha visto antes e não sabia como usar, lavei fraldas de pano, perfumei as gavetas. Comprei mamadeiras de bicos em mil formatos, sem saber que meu bebê mamaria no peito até completar um ano. Quantos enganos vive uma mãe idealizando a jornada dos filhos.

Para a porta da maternidade, encomendei um quadro azul celeste onde dois passarinhos, pousados num galho comprido, estufavam o peito sem tirar os olhos do filhote que chegava ao ninho. Para o segundo filho, o mesmo ninho, no mesmo quadro, ganhou mais um passarinho. Eram meus votos de uma família amorosa, de um lar acolhedor, de convivência fraterna amigável e afetuosa, de proteção sem privar da liberdade dos voos próprios. Eram esses os meus desejos para meus filhos.

Transbordando de idealizações que escorriam até pelos mamilos, demorei a enxergar com clareza o que era eu, o que era filho, o que era amor, o que era medo, o que era possível e o que era devaneio. Eu passeava de camisola pelos corredores claros da maternidade, imaginando outras mães e outros bebês vivendo seus primeiros encontros com mais intimidade, mais sintonizados e menos assustados. De passo em passo, de porta em porta, eu fantasiava o que cada mãe vivia e pensava, e via pendurado o que cada família sonhava para seus bebês. Vi nome de anjo, vi principe de coroa, vi familia de crochê, vi sapatinho posado em barrigas gigantes, vi o uniforme do Corinthians e depois não consegui ver mais nada.

Fiel torcedora, frequentadora de estádio, senti um frio na espinha. Achei pouco. Achei insensível. Achei que de todas as coisas que alguém poderia desejar a um filho recém nascido ali estava uma expectativa só, de que o filho vestisse o desejo de ser o que sonharam que fosse. O que será que os pais pensam quando escolhem para as boas vindas aos filhos, uma representação desabitada, com falta de substância? Achei triste e descolorido. Não só porque o Corinthians é branco e preto e o meu desejo para filho é arco íris, mas porque acho que gente, no mundo, tem que fazer escolha e descobrir quem se é sem doutrinação.

Nada contra o futebol, nada contra as famílias que torcem e sofrem juntas pelo time do coração, que é a parte mais legal da torcida, nem penso que todos os pais que penduraram roupinha de time na porta da maternidade anularam seus desejos mais amorosos. Mas acho que o fla x flu nacional perdeu a graça, tanto no esporte como na política e na sociedade. Não dá mais para sonhar filho por algum viés tão militante, tão limitante, tão beligerantes e tão excludente. Assim como, mais tarde, não vai dar para se queixar que cresceram agressivos, intolerantes e que a sociedade se tornou competitiva e maniqueísta. Acho que não dá mais.