desafio, educação, Matutaí, por Vivian Wrona Vainzof

Gosto de manga no pé

Meu relógio de pulso quebrou e agora eu olho de tempo em tempo o braço vazio, presa à mania de ter a hora na mão. Três pessoas já me sugeriram comprar um relógio que conversa com o celular. Achei a ideia boa! Quem sabe os dois se dão bem? Pelo menos o celular me deixaria mais à vontade para conversar com as pessoas… Mania deselegante de alguns eletrônicos dessa geração, de interromper a gente enquanto fazemos outra coisa.

Meu primeiro relógio de pulso eu ganhei da minha mãe e ficamos horas no sofá aprendendo a ler os ponteiros. Minha irmã tinha ganhado antes, presente da vovó, com uma pulseira laranja e o desenho do tio Patinhas no mostrador. Desde lá eu fiquei esperando a minha vez. Agora pensei que chegava a minha vez de novo, mas era eu quem iria ensinar. Só que não foi bem assim… Os relógios de ponteiro nunca foram apreciados pela geração Z na minha casa. Legal hoje é desfilar com relógio digital que conversa com o celular, presente do avô. Só espero que continuem a conversar comigo!

Os pais esperam repetir com os filhos suas memorias mais afetivas. Se foi bom para mim, vai ser especial para eles também. E assim, já levei a família para conhecer a minha escola primária, a antiga casa da minha avó, uma viagem para a represa. Reeditar minhas lembranças sempre me tira o fôlego outra vez. Alguns dos meus livros preferidos já estão esgotados nas livrarias e lamento tanto que eles não poderão ler. Ou encontro umas versões bem antigas, de capa rasgada, papel amarelo, só falta os ponteiros para me mostrar que está na hora de eu virar a página. A experiencia original é autentica, só ela tem gosto de manga do pé.

O pai do chines Alex Shih deve ter imaginado isso também, quando decidiu não deixar a sua herança para os filhos. Dono da maior corretora de imóveis da China, ele preferiu doar seus milhões para caridade, como noticiou a Bloomberg, na semana passada. O filho já ocupa a vice-presidência da empresa, mas o pai oferece a ele o mesmo salário pago a outros funcionários. “Eles valorizarão mais se ganharem as coisas passo a passo”, acredita.

Geração_X,_Y,_Z

Talvez Alex não veja a hora de assumir o cargo do pai. Talvez ele nunca chegue ao capitulo da casa própria, ou das mansões que ele vende. Mas ele vai ter a chance de criar as suas próprias memórias e sentir o gosto de manga escorrendo no queixo. Alguma hora ele vai sentir que faltou fôlego. Acho que ele ainda vai agradecer ao pai pela autenticidade da sua vida. Que seja numa boa hora.

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desafio, Matutaí, por Vivian Wrona Vainzof, superação, world schooling

Inspira, transpira

​Hazel Swayne é uma pessoa que me inspira. A vida dela não tem muito em comum com a minha. Nos conhecemos há uns anos num café, minha sócia e eu, ela e o Marido, Iñak Escudero, para uma conversa sobre educação, enquanto os três filhos deles jogavam ipad na mesa ao lado e nos interrompiam a todo minuto, pedindo atenção. Como a referência no assunto, ali, eram eles, me precipitei em não guardar uma boa primeira impressão.

Ela é peruana, ele é espanhol, moravam em Nova York e estavam de passagem por São Paulo. Se vieram a trabalho, não era fácil dizer. A visita de três semanas era uma escala da jornada educativa que escolheram fazer com os filhos. Há meses que viajavam o mundo visitando centros educacionais renomados, desvendando as melhores tendências, enquanto se expunham às culturas do mundo. Se o ipad pode atrapalhar um projeto grandioso desse, hoje não vejo assim.

Acompanho um pouco seus passos pelo @learninggypsies no instagram. Da inveja à admiração, sempre me pergunto de onde as pessoas arrancam coragem, criatividade, sensibilidade e sensatez para largar sua estabilidade e tudo o que conhecem e acham que podem esperar, pelo gigante desconhecido. Mas depois de completar a maratona de Paris, a Hazel me dá uma pincelada do que poderia ser uma das respostas.

“Pensei que eu andaria a maior parte, mas eu corri, corri todo o percurso!!! Com meu tutor e torcedor da vida cantando e sorrindo a cada km. Iñak correu mais 40 minutos mais devagar do que está habituado, só para cruzar a linha de chegada segurando a minha mão. Quero compartilhar 8 aprendizados que servem para a vida:hazel

  1. Iñaki sempre recomenda a qualquer um que pretende correr uma maratona pela primeira vez, que sorria. Fiquei curiosa sobre esta dica e descobri seus benefícios: sorrir de propósito altera a química cerebral e cria uma função imunizadora que diminui a pressão arterial e alivia dores. Então eu sorri por todo o caminho, principalmente quando pensei em desistir. E vou continuar sorrindo pela vida, não importa a circunstância.
  2. Abrace a raça humana. Nós vimos de tudo, de um homem cego a um avô bem velhinho e todas as possibilidades que existem entre um e outro. Todos se respeitando, se apoiando e festejando com os outros. Tire um momento para olhar ao redor e admirar as pessoas pelo que elas são.
  3. Tenha sempre um lenço à mão. Correr causa diarreia em 71% dos corredores de longas distancias. Eu fui um deles e tive que parar no km 26 num banheiro extremamente desagradável. Foi uma das experiências mais traumáticas que me lembro até hoje.
  4. O tempo é relativo. Fiquei obcecada em manter o passo e terminar a prova num bom tempo. Mas a parada para ir ao banheiro me atrasou e recomeçar foi o mais difícil. Graças ao Iñak eu superei minha obsessão pelo tempo e só assim pude retomar o fluxo.
  5. Torcer pelos outros é como uma droga para quem recebe. Não consigo explicar a sensação de chegar ao km 37, com baixa oxigenação do cérebro e os batimentos cardíacos quase entregando os pontos, e sentir nova energia com cada sorriso, cada estímulo, cada torcida, cada toque de mão das crianças. Então, por favor, torçam pelos outros sempre.
  6. O cérebro é o musculo mais poderoso! Me senti em transe. Minhas intensão era cruzar a linha de chegada e nossa intenção é o que nos leva ao resultado. Acredite.
  7. Família e amigos são nossa força. Demos o melhor de nós quando lembramos dos nossos filhos, familiares e amigos, e pensamos que fazíamos por eles. Nossas filhas Alani e Amaia gravaram mensagens para que escutássemos ao longo do percurso e foi importante saber que estavam com a gente quando precisamos.
  8. Mantenha-se hidratado e coma saudável. Seu corpo vai agradecer, especialmente quando você passar dos 40.

Agora começa o treino para o meio triathlon!…” Que sua nova intenção te leve a grandes resultados, Hazel. Estaremos esperando os seus novos aprendizados para mais inspiração.

desafio, educação, férias, infância, maternidade, Matutaí, por Vivian Wrona Vainzof

Entre espuma e marola

Tem noite que a gente nem vê a lua. Tem noite que a gente nem olha para o céu. Tem dia que a gente nem vê passar. Nesses dias que passei na praia, assisti à lua ficar mais redonda, arrastando o véu prateado pelo mar. A maré se encheu de tanto esperar.
Dava para ver na cara dela, que o brilho era medo de minguar.

Entre espuma e marola, entre a areia e o céu, vi que as crianças estavam crescentes. E seus medos, eram outros.

Criança só cresce quando deixam. E só se enche quando está vazia demais para reconhecer a si própria.

Quem sabe se corressem mais para longe, se nadassem mais no fundo, se passeassem mais no escuro, se ousassem voar mais alto, quem sabe não estariam mais preenchidas de consciência? Talvez, assim, veriam mais de perto o que pensam e sentem, o que gostam e temem, o que acreditam e são. Talvez apreciassem mais a vista quando fecham os olhos. Talvez se sentissem mais brilhantes quando fraquejam e suportassem mais noites sem luar.

Se a maré sempre recua antes da onda,luacheia e se a lua, quando está nova, não é visível no céu, então os filhos, quando se encolhem, pode ser que também estejam se preparando para crescer.

Mas os pais suportam assistir aos filhos em suas fases minguantes?

Quem sabe se olhassem mais para a lua…

Talvez soubessem que é preciso coragem para fazer um ciclo todo. Que cada tempo é uma fase. Que é preciso minguar para crescer.

casamento, desafio, Felicidade, por Vivian Tempel Wroclawski, reflexão, relações afetivas, viagem

Em busca de equilíbrio

Eu estava tentando me entender com as marchas. Observando os outros, aquilo parecia tão natural quanto pedalar, mas, para principiantes, manter o equilíbrio pra não cair é o mais importante e minha atenção estava totalmente voltada a essa tarefa.

Já não lembro se perdi a capacidade de fazer 12 coisas ao mesmo tempo depois de ter filhos ou se ela foi se perdendo com o passar dos anos, assim como os fios do meu cabelo. O fato é que hoje preciso me concentrar numa única tarefa por vez. Se estou lendo uma notícia, sou incapaz de escutar o que as crianças estão conversando na mesa do café; se estou escrevendo um email, não há meio de ouvir uma ideia que surgiu no escritório e que precisa ser dividida naquele instante. Preciso parar de escrever, sintonizar o outro canal e escutar a ideia com minha atenção plena. Essa mudança de canal não leva mais do que 1 segundo, mas essa micro pausa é como meu cérebro consegue dar conta de tanta informação e estímulo. Acho até bom que seja assim. Gosto de pausas.

A palestra que assisti do professor de Harvard Tal Ben Shahar sobre o curso “A ciência da felicidade”, falava da importância de pausas para uma vida e mente equilibradas. Pequenas pausas ao longo do dia, como um café, um telefonema que não diga respeito ao trabalho, meditação; e grandes pausas ao longo do ano: férias. Breves ou longas, perto ou longe de casa, uma profunda e verdadeira quebra na rotina.

Tento cumprir anualmente o preceito. Me permito tirar férias com as crianças, me obrigo a tirar férias a dois e, nos últimos anos, percebi também a importância de estar um pouco sem nenhum deles, só entre amigas. Ainda não me aventurei a viajar sozinha, mas pode ser uma próxima experiência. Esse tempo longe de casa, do casal, dos filhos, ajuda a gente a enxergar nossa vida de fora e ajustar pequenas peças que foram se desencaixando no meio do caminho. O momento intenso com cada um também permite outros acertos, cria memórias, redefine, reafirma.

Dessa vez passei pouco mais de uma semana longe das crianças. E me aventurei a algo novo. Me desafiei a uma viagem de bicicleta. Não aprendi a pedalar quando eu era criança, talvez porque minha mãe não sabia, talvez porque não era um hábito na minha família. Mas há uns 10 anos, quando me tornei mãe, achei que era hora de corrigir o equívoco para não deixar o legado a meus filhos, e aluguei uma bicicleta pra tentar, sozinha, superar a vergonhosa falta de habilidade. De lá pra cá, devo ter subido umas 10 ou 15 vezes em uma, sempre tensa, mas cheia de vontade e esperança. Aprendi a me equilibrar, a fazer curva e, ano passado, num susto, me vi pedalando 20km numa estrada de terra cheia de pedras e buracos. Chorei, caí, sangrei, mas fui até o fim. Precisei de um ano pra me recuperar da experiência e decidir que uma viagem de bike faria muito bem pra mim, que adoro um desafio, e para o equilíbrio do meu casamento.

A bicicleta era ótima, cheia de marchas; o cenário, cinematográfico; a companhia, a mais segura e acalentadora; e a coragem e vontade, de uma criança aprendendo a pedalar. Mas as subidas eram mais longas do que eu previa, as estradas mais movimentadas do que eu podia imaginar, e as dores desconhecidas na perna, quase me fizeram parar. Pensei nos meus filhos e em quanto tento incentivá-los a não desistir, a curtir o que estão vivendo apesar das dificuldades, a reduzir os incômodos e dores a simples incômodos e dores, a apreciar a paisagem. E, com eles, meus filhos e meus pensamento, fui até o fim. Subi a montanha mais alta, já dominando as marchas, como se fizessem parte do meu corpo e, exausta, mas orgulhosa, me deleitei no prazer do que eu via e vivia.

Alguns ajustes foram feitos nesses dias longe de casa, alguns planos foram traçados e a respiração voltou a fluir normalmente. Estou pronta para mergulhar na rotina de novo, pronta para novos desafios.

 

EmBuscadoEquilibrio