arte, educação, Matutaí, por Vivian Wrona Vainzof

A desnutrição, por Philip Pullman

“Crianças precisam de arte e de poemas tanto quanto elas precisam de ar puro e precisam brincar.”

O escritor Philip Pullman é um educador dos mais sensíveis. Num artigo publicado recentemente ele declarou que as crianças precisam de histórias e poemas, de arte e de música tanto quanto precisam de amor, de comida, de ar fresco e precisam brincar.

Segundo Pullman, crianças que não se alimentam bem, ficam desnutridas e isso é visível. Aquelas que não brincam, também podem ficar visivelmente injuriadas, mesmo que isso leve um pouco mais de tempo para se notar. Crianças que não são suficientemente amadas podem apresentar marcas disfarçadas, mas sabemos que o dano é para sempre. Mas quando a privação das crianças é de histórias, de poesia, de arte, de música, o estrago não é perceptível. No entanto, está lá. O corpo é saudável, mas falta algo.

Philip é autor de mais de 20 publicações, quase todas dedicadas ao público infantil. Com seu olhar delicado, concluiu que algumas pessoas crescem felizes sem nunca encontrar arte na vida, sem folhar um livro, nem reparar em quadros ou sentir falta de ouvir boa música. “São bons vizinhos e bons cidadãos”, diz ele.

Mas outras, cedo ou tarde, descobrem uma emoção que nunca imaginaram antes, num encontro com alguma coisa tão desconhecida quanto o lado escuro da lua. Pode ser um poema que ouviram no rádio do carro, ou o som que escapa pela janela de uma casa onde alguém toca piano, ou uma tela tão linda que dá até tontura. O susto é tamanho que parece saciar uma fome tão antiga quanto desconhecida. Sentem como se sentem os famintos quando saboreiam o doce na boca, um sabor tão delicioso que chega até o coração.

Pullman descreve um sentimento confuso, alegria e tristeza que se misturam, uma experiência completamente nova e estranha que convoca a se aproximar. O que descobrem é algo de que necessitavam desesperadamente, sem sequer imaginar que isso existia. Não fosse esse instante e poderiam passar a vida toda sem saber que essa emoção era possível. Jamais sentiriam aquela vontade louca de aumentar o rádio, de pular pela janela para dentro de uma casa desconhecida, de passar dias olhando para uma tela na parede. Viveriam para sempre em estado de fome cultural, sem ao menos supor o que estavam perdendo.

Os efeitos da privação dessa emoção cultural não são devastadores. Tampouco seria facilmente identificado. E como ele gosta de repetir, bons amigos, pessoas educadas, gentis e decentes talvez nunca tenham experimentado nada parecido. Se todos os livros ou todos os quadros do mundo desaparecessem para sempre, talvez eles nem notassem. Mas a fome existe em inúmeras crianças ao redor do mundo. Uma fome muitas vezes insaciável porque nunca foi despertada, mas que alimentaria e nutriria suas almas de uma forma que quase nada no mundo pode suprir.

Philip Pullman gosta de repetir que toda criança tem direito a educação, a moradia, a saúde e tudo o mais. Mas é preciso entender que todas as crianças do mundo têm direito a cultura. Precisamos compreender e aceitar que sem histórias, sem poesia, sem boa música e pinturas as crianças permanecem famintas.

sededearte
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arte, Convidados Matutaí, por Vivian Wrona Vainzof

Matutaí com o José Bueno

Quando conheci o José Bueno, ele usava um quimono branco e uma longa saia preta que inspirava respeito. E que homem usa saia longa como indumentária, em São Paulo, nesse século, se não para esconder segredos de alguma profunda sabedoria? Depois desse encontro, tive o prazer de sentar com ele para um café com prosa. Dessa vez ele não usava saia, nem sua faixa preta de samurai, mas deixou no ar a aura de mestre, com tudo o que dizia. Fui sabendo dos segredos da filosofia do Aikidô, que regem os passos da vida dele. Ao contrário do que eu poderia esperar, o discurso era pura delicadeza. Quantas surpresas se escondem atrás dos nossos preconceitos… Quantos guerras criamos, inclusive com os filhos e aqueles que mais amamos, em nome da paz?

O Bueno também é arquiteto, artista, consultor e professor. Ele reúne habilidades necessárias a cada um e a todos esses ofícios: o olhar atento, a escuta apurada, a compreensão do ambiente, a comunicação clara, limpa e acolhedora, a tradução dos sentimentos, e vai, assim, inspirando as pessoas que cruzam os seus caminhos.