amor, casamento, Família, irmãos

Lar doce lar

Li recentemente divulgação do IBGE sobre o número alarmante de divórcios no Brasil. Cai a taxa de casamentos e sobe a de separações. Ano após ano recebemos esta informação com assombro. Mas se é um movimento conhecido e, portanto, previsível, por que nos surpreendemos com a notícia? Será que a expectativa revela a porção romântica de todos nós? Será que a fé no amor eterno até que a morte nos separe é a cara de uma sociedade que ainda acredita na família como base central da sua existência, apesar da realidade acenar o contrário. Com todo o meu romantismo canceriano, espero que sim.
Uma vez ouvi uma das declarações mais lindas de que consigo lembrar: numa grande festa de celebração familiar, o marido agradeceu à esposa: obrigado por eu gostar de voltar pra casa todos os dias.
Gosto de pensar nisso. Espero que meus filhos possam sentir assim quando terminam a aula, ou meu marido, no fim de seus longos dias de trabalho. Também respiro fundo quando embico meu carro no portão da garagem e me oxigeno, para que o encontro em família não se torne um enorme desencontro de desejos e expectativas que a rotina foi minando discretamente, enquanto todos dormiam.
Quero crer que mantenho um lar doce lar. Um ambiente acolhedor e agradável onde a mãe não é uma geladeira velha, imprescindível só quando pifa; onde filhos contribuem com autonomia e, mesmo se não tiverem prazer nisso, pelo meno que o façam com  responsabilidade e consideração. Onde irmãos estão lá uns para os outros, sem essa de “não fui eu”. Onde há disponibilidade para ouvir e enxergar os outros sem rivalidade ou vinganças.
Onde há espaço para cada um ser um sujeito inteiro na constituição do casal e que se fortaleçam com isso. Onde possamos nos olhar nos olhos com sinceridade para dizer o que somos.
Não quero parecer indelicada com os dados do IBGE mas ainda acredito que cabe a nós evitar essa queda do penhasco.
luiz_hanns
amor, Família, Matutaí, por Vivian Wrona Vainzof, relações afetivas

Papai só não faz chover

Sou mãe e sou filha e por mais que o primeiro papel ocupe a maior parte dos meus dias, meu pai e minha mãe estão quase sempre comigo no trato com meus meninos. Ser filha ainda toma a maior parte de mim.
São só 10 ou 12 anos de infância. Com mais uns da adolescência, vá lá. Mas parece ser a vida inteira. Pra mim, é tão recente tudo o que ouvi e senti em casa com minhas irmãs, o jantar em família, sempre juntos, falando do dia. As viagens de carro, cantando num harmonioso desafino. A mão fria, de unhas pintadas, apertando meu braço contra o termômetro, nas noites de febre. As broncas, que escapavam por entre lábios semi cerrados, acobertadas pelo espesso bigode escuro, enquanto as têmporas inflavam como guelras.
Sutilmente, quase sem notar, vou levando aos meus filhos toda a vida já vivida. As brincadeiras se repetem, as musicas, os livros, as receitas que vão pra mesa, passeios, preocupações, sonhos, vou tirando um a um da mala de couro ruivo, alaranjado, que minha mãe ainda guarda num quartinho, junto com muitas coisas e memórias daquele tempo em que as malas nem tinham rodinhas.
Quando meu pai chegava em casa à tardinha, a gente desligava o telefone e nem era ainda a era dos celulares e aparelhos pessoais. Mas lá em casa já se falava em convivência. TV, tínhamos uma só. E sem alternativas eletrônicas, era preciso escolher o programa de comum acordo, embora a palavra final fosse sempre dele. Respeito paterno também é inegociável no meu novo núcleo familiar.
Esperei muitas e muitas vezes alguém aparecer na saída do clube pra me buscar. O horário marcado era mera referência, podia ser horas mais tarde. Sem chance de entrar em contato com quem vinha de longe, perdido no trânsito de São Paulo, o jeito foi apelar para a confiança de que sempre viriam, como até hoje escolho viver. E eles sempre vieram.
Quando mudei de escola, na 4a série, trouxe um recado que meu pai abriu e leu: “mamãe, a vivian conversou muito na classe hoje”. Ao que respondeu na mesma folha de papel: “em casa ela também conversou”. Envergonha pelo pai que sempre misturava severidade com humor, senti também a segurança de poder ser quem sou e quero ser.
Lá pelos 14 anos fiz uma viagem de estudos a Israel, com um grupo de jovens de todo o país. Na mesma época, minha irmã menor viajou para a Disney com uma família de amigos. Nunca esqueço das meias de lã coloridas que nós duas ganhamos de presente, com cartões que diziam assim (para ela): “pra pisar nas estrelas”. (E pra mim): “Para seguir os passos dos profetas”. E o caminho foi sempre aquecido pela presença deles, colorido pela existência deles e amparado pelas mãos dadas com eles.
A voz do meu pai soa clara nos meus ouvidos:
– Papai só não faz: – ele falava alto, desafiando as filhas.
– Chover!! – gritavam as três, orgulhosas e sorridentes.
Acho que ele fez de tudo por nós.

Ja há mais de 25 anos que não o escuto pra valer. Mas ainda sei o que ele diria. Porque meus filhos me convidam todos os dias a lembrar a estrada de onde vim, o que carrego comigo e o que posso ensinar a eles.

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