amor, Família, infância, por Vivian Wrona Vainzof, Receitas, relações afetivas

À luz da janela

A menina esticava a massa contra a janela procurando transparência. Ela sovava e suava, torcia e se contorcia tentando acertar. Espreguiçava a mistura sobre a pia, estirava o máximo que podia. Às vezes a massa rasgava de fina, antes de ficar transparente, e ela tinha que recomeçar.

Era a avó quem enxergava além do que a menina conseguia e cobrava o ponto certo da massa, que só ela sabia. A pele manchada e os dedos calejados disfarçavam a autoridade daquelas mãos, quando demonstravam a maestria em amassar, untar e assar. Era tão sabida a senhora, que não dava conta de ensinar. Era uma cozinheira de mão cheia e gostava que aprendessem com ela, adoraria encher as mãos da filha e da neta com suas receitas de família. Mas ensinar e aprender são trabalhos de personalidades próprias que nem sempre caminham juntos. Uma achava que ensinava, mas a outra não aprendia. Uma sonhava aprender, mas a outra não transmitia.

– Vovó, falta açúcar? Chega de sova?

– Você tem que sentir, minha filha.

E ela sentia que nunca aprenderia…

Mas insistiu por amor a avó e ao perfume das maçãs no forno, da manteiga começando a derreter, do açúcar que polvilhava aquele momento.

Há muita fome para desvendar o que leva alguém a aprender. Conhecer os ingredientes que despertam atenção e levam à emoção é o segredo da receita.

A neurociência está convencida de que “só se aprende aquilo que se ama”, expressão título do livro de Francisco Mora, especialista no assunto. Ele alega que “é necessário despertar a curiosidade, acender uma emoção para armazenar e recordar de uma forma mais eficaz”. E conclui: “os elementos desconhecidos, que nos surpreendem, são aqueles que abrem a janela da atenção, imprescindível para a aprendizagem”.

Mais de cinquenta anos mais tarde, a menina ainda sente a boca aguando e ainda está em busca da transparência da massa à luz da janela. Reencontra com a avó em cada dentada de applestrudel e aproveita para perguntar como abrir a massa à perfeição.

Ela não sabe que já aprendeu.

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amor, Família, Matutaí, por Vivian Wrona Vainzof, reflexão, relações afetivas

Matutaí: O que você acha do dia das mães?

Perguntei para algumas pessoas próximas, que eu confio e admiro de formas muito variadas, quase todos mães e pais, mas todos eles, filhos: “o que você acha do dia das mães? ”

Recebi muitas respostas imediatas, simples e diretas, que estavam, provavelmente, guardadas nas prateleiras baixas de uma vitrine das ideias que alguns têm da vida e das relações com as pessoas. Depois vieram umas outras, cobertas de um resto de pó que insiste em encobrir os pensamentos que ficam armazenados no quartinho do fundo, não por serem mais preciosos, mas por serem mais antigos e talvez muito antiquados. Não sei se são. Acho que ficam ali, aprisionados no tempo e cada vez mais difíceis de encontrar, mas são os que nos trazem mais frescor, já que convidam a repensar. Fui lendo as respostas e procurando onde estaria guardada a minha.

Gostei de ler nas entrelinhas, a perspectiva de mãe ou de filho na reflexão de cada um. Não depende muito de idade a pessoa ser mais mãe ou mais filho. É da gente e acho que não passa nunca. Pra mim, 10 anos depois de ser mãe, nesse dia eu ainda gosto de achar minha mãe a mais bela, de ver como seus olhos verdes e seu sorriso largo me acolhem, como o seu abraço é macio e eu ainda posso me encolher no colo dela.

Por muitos anos eu acreditei que a data tinha perdido completamente a essência emocional, com a obrigação da presença em dia e horário marcados, o presente, as filas nos restaurantes lotados, e os encontros, tão vazios. Recebi considerações sobre o abuso comercial dessa data, a pressão cultural de uma sociedade consumista, alguns levantaram a bandeira de que todo dia é dia das mães.

Pode ser. Mas pensando bem, eu acho muito linda a ideia de celebrar a maternidade e honrar a figura da mãe, ainda que ela esteja numa tia, numa avó, numa irmã, numa professora, no pai, como bem me lembraram. Mesmo que a maternidade seja todo dia, seja toda hora, mesmo que amar esteja nos detalhes do cotidiano e não nas grandes declarações, mesmo que a cumplicidade se crie na rotina compartilhada e não só em datas festivas, mesmo assim, o todo dia as vezes nos despista de nós mesmos. E pode ser que a gente esteja precisando de um empurrãozinho, de um pretexto para reunir a família, de uma oportunidade, no meio de tanta vitrine, de tanto compromisso, de tanta pressa, de tantos rancores, de tantas certezas, para um encontro amoroso.

Não acho isso só porque os beijos e abraços que eu ganho ainda são espontâneos e porque os presentes que eles criam só pra mim me levam ao céu. Acho isso porque gosto de lembrar, esquecidos que estamos, de honrar e agradecer tudo o que ela é pra mim.

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Perfeita imperfeição

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Uma ideia desponta no recanto mais fundo da minha cabeça. É uma ponta de ideia, que ainda não deu as caras, mas já começa a me cutucar. Ela me chama, me acende, preciso escrever, preciso escrever.

Mas um texto pra ser texto meu, vivo e inteiro, precisa de muita dedicação para nascer. Não levo nove meses para gestar cada escrita, mas pôr um desses no mundo é um parto para mim. Quero que ele seja inteligente, delicado, bem humorado, simpático, corajoso, lindo e mais um sem-número de qualidades. Não canso de reler, de rescrever e de botar desejo de perfeição, de imaginar seu rosto ao vento, correndo mundo. Não canso! E se publico, ainda continuo lambendo a cria, revejo, remexo e sonho com o irretocável.
Que obsessão pelo texto perfeito… Seria coisa de escritora, ou paranóia de mãe?
Mas é possível amar o imperfeito?
Um casal de amigos meus saiu do consultório médico, anos atrás, dando as mãos para o filho, 5 anos, como se carregassem o túmulo dele. Não sabiam como digerir a novidade: o filho precisaria usar óculos. Acompanhei de perto uma angústia que não me fazia sentido, já que fui a menina que sempre quis usar aparelho nos dentes, engessar o braço e usar óculos! Ainda demorei uns dias até compreender que tudo não passava de uma enorme dificuldade em admitir que, se o filho era míope, ele não era perfeito. Mas míopes estavam os pais, que passaram a ver um borrão de filho onde antes viam uma pintura. E como amá-lo da mesma maneira? Ou melhor, de outra?
Assisti a um documentário na TV, onde o artesão falava sobre as mesas que fazia em madeira e a frustração por ver pessoas trazendo mesas antigas para restauração, porque estavam manchadas. “Mas essas manchas contam a história do móvel”, ele dizia, “essa é a essência da peça”.
As manchas davam às mesas uma beleza única, marcavam a história delas, as tiravam da condição de vitrine para ganhar verdade na cara. E a verdade é que a perfeição não chega nunca.
Nossos filhos nunca são exatamente o que sonhamos. São imperfeitos como somos todos, únicos, excepcionais, especiais a seu próprio modo e marcados pela história de vida de cada um. Mas são eles que nos chamam, nos acendem e nos convocam a ser os pais perfeitos. A viver acima de tudo, mais essa obsessão.
amor, casamento, Convidados Matutaí, Matutaí, por Vivian Wrona Vainzof

Intimidade

Na semana que vem teremos um encontro Matutaí com o Hanns falando da relação dos pais na vida das crianças. Um assunto tão atual na era das telas, das distâncias físicas reduzidas e as emocionais tão aumentadas. Esse encontro me deu vontade de publicar o texto abaixo, que escrevi um tempo atrás:

– Nunca mais nos encontramos, você acredita? – ela disse sem olhar nos olhos dele, enquanto enchia de Coca-Cola um copo com gelo. O rosto inclinado para o lado tinha o viço de pele tratada com água termal. Era loira-dourada, arrumada, o ombro à mostra. As mãos leves sobre a mesa eram mais presentes que ela, naquela conversa sutilmente desconfortável.
Eles ainda não se conheciam e tudo indicava que o caminho para a intimidade era longo.
Ela chegou primeiro, pediu alguma coisa ao garçom e se esforçou para parecer à vontade. Quando chegou seu par desconhecido, reconheceram-se no ato: um homem de meia idade surgiu na porta e fez uma pausa. Passeou o olhar, sem disfarce, pelo salão, viu todas as mesas ocupadas, mas só ela sorriu. Ele usava um traje social-descontraído antes do fim do dia e, mesmo assim, exageradamente asseado e perfumado. O paletó, de um xadrez largo em azul e vermelho, era apertado nos braços e o comprimento era seu tamanho justo.
As mesas do café, quase todas bem pequenas, acomodavam diversos tipos de encontros. Uns engravatados falavam de negócios; uma criança bem educada dividia um hambúrguer com a mãe ou a tia; uma dupla de jovens quarentonas tomava capuccino, alternando da seriedade fúnebre à gargalhada desenfreada, depois falavam no celular, olhavam o computador, o relógio, a janela e de novo o computador, antes da próxima gargalhada; um casal de namorados se olhava tão dentro um do outro, que não puderam notar o garçom aguardando, desconcertado, que fizessem seu pedido.
E, então, eles, na mesinha da frente. Uma família ainda aguardava nas poltronas da espera, com dois carrinhos de bebê, mas nenhuma mesa parecia disposta a findar suas conversas.
A deles, mesmo, ia longe.
Ela continuou com seu insuposto discurso de apresentação:
– Eu não sou feminista, de fazer passeata, mas tenho meu discurso, sabe? – não era o tipo de pergunta que esperava uma resposta – me conhecendo como me conheço, eu estaria me arrumando um abacaxi…
E ele concordava com a cabeça. Só concordava.

Pediram o vinho da casa. Brindaram “a nós”, na tentativa esgarçada de transformarem-se num só.
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A intimidade não é um destino em si, mas um percurso que se renova a cada passo, a cada olhar, a cada risada, a cada consolo, a cada segredo, a cada bocejo, a cada acaso, a cada minuto, a cada “cada”…

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