Matutaí, por Vivian Wrona Vainzof

Matutaí você também

Este blog é um convite a matutar.

Toda semana publicamos matérias, entrevistas, pesquisas e recomendações de livros, filmes, textos, palestras que provoquem as mães e pais que querem pensar a educação e dedicar um cuidado amoroso à relação com os filhos. Também divulgaremos os encontros da Matutaí, com convidados que tratam do nosso tema sob diversos pontos de vista. Acompanhe e seja bem vindo.

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Para começar, matuta aí por um instante: o que a maternidade faz da gente? E o que deixamos de fazer depois de ser pais e mães?

Desde que escutei choro de filho pela primeira vez, e segurei aquele bebê com embaraço, tão desajeitada, essas e outras perguntas batem à minha porta todos os dias. Às vezes entram sem bater.

Já ouvi que maternidade é plenitude. Mas mãe conhece bem cedo a privação de sono, e logo vem a falta de tempo. Depois carecemos de paciência, de tranquilidade, de garantias…. Insistimos em acertar sempre, em resolver tudo. Sugerimos respostas para as perguntas que nem sequer foram feitas. Mesmo assim, a ideia de suprir todas as faltas e anular todas as falhas é ilusão. Mãe é ser cindido, por definição.

A mãe perfeita mora no quarto ao lado, nos ronda com sua inquestionável sabedoria. Ela faria tudo diferente, tão segura e cheia de si. A mãe perfeita não perde a paciência e nem as estribeiras, nunca levanta a voz. Coloca limites sem perder a ternura. Ela cobra e acolhe, planeja e cumpre, ensina e pune.

E então vêm os filhos. Eles chegam ao encontro das mães verdadeiras, desprovidas da completude que sonharam. Porque o deleitamento materno também alimenta os nossos fantasmas. A maternidade real atropela as expectativas e escancara nossas fragilidades emocionais, expõe nossos medos, revela tantas fraquezas.

Mas o assombro, se não paralisa, excita. A falta de convicção, muitas vezes, abre caminhos por dentro da gente, nos faz pensar e repensar. E se é na falta que chegamos mais próximos de ser plenos; se é diante das falhas que podemos nos reinventar, então por que é tão imperativo o impulso de suprir e resolver as questões dos filhos? Será que a brecha para a dúvida, a possibilidade de descobertas, o espaço para a mudança, não seriam os melhores exemplos que poderíamos dar às crianças e adolescentes? Quando as certezas fogem do nosso alcance e já não sabemos quais são as respostas que ficaram presas para sempre, ou quais foram as perguntas que deixamos do lado de fora, não seriam frestas para arejar as ideias e amadurecer?

Desde que escutei choro de filho pela primeira vez, nunca mais parei de matutar sobre a maternidade, a educação, as relações, as minhas essências.

O exercício permanente da reflexão suaviza as angústias, pacifica as inquietudes, nos livra de cobranças e ansiedades e isso nos fortalece diante das escolhas diárias. Tira da conta dos filhos tudo o que deixamos de fazer e de ser, e bota em nosso próprio colo a responsabilidade de ser feliz.

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